domingo, setembro 17, 2006

E se em vez de pregar aos convertidos...?


O número do "The Economist" desta semana traz um suplemento dedicado ao estado actual da economia global. No meio do retrato sobre o impacto do crescimento das emerging economies, sobretudo os gigantes China e India, nas dinâmicas macroeconómicas globais, e em particular nas economias dos países ricos, lê-se que os "Governments may need to harness the tax and benefit system to compensate workers who lose from globalization" (p.10). Apesar dos niveis de inflação terem mantido os preços baixos - exceptuando a "bolha" no mercado da habitação -, o semanário (insuspeito de inclinações esquerdistas) não esquece que a globalização produz winners e losers, e que estes são tipicamente os trabalhadores não-qualificados, que vêem os seus salários reais estagnar ou baixar. Enquanto a esquerda nutrirá genuína preocupação por estes elementos que suportam o grosso das consequências negativas da abertura transnacional dos mercados (ao contrario da classe média-alta e das elites), há uma razão pragmática para que a direita não se limite ao discurso da "responsabilidade individual": é que estes serão elementos mais receptivos aos reptos proteccionistas e anti-globalizadores. Se à direita se luta militantemente contra o espectro do proteccionismo, seria mais inteligente que pensasse como conferir garantias institucionais aos losers do que os tentar convencê-los, através de discursos encantatórios, do valor metafísico do "risco" e de como é sedutora a vida ao sabor do vento da incerteza radical. Este discurso é muito bonito - mas para a larga maioria sem recursos económicos e culturais é uma conversa completamente oca e, no limite, é o mesmo que pregar para convertidos.

5 Comments:

At 6:46 da tarde, setembro 21, 2006, Blogger Rui Martins said...

mas haverá sempre uma maioria da população laboral que estará com baixos níveis de formação profissional... acreditar noutra coisa, é acreditar numa Utopia... Poderá ser possível, mas somente à escala regional, a uma escala naciona, de um médio país, será sempre muito difícil...

mas é verdade, é precisamente na Qualificação que reside a solução e é em quem menos a tem que o Desemprego tem mais impacto.

 
At 11:44 da tarde, setembro 21, 2006, Blogger Hugo Mendes said...

"mas haverá sempre uma maioria da população laboral que estará com baixos níveis de formação profissional"

Na medida em que isto é verdade (e isto varia de país para país), é precisamente por este motivo que é preciso encontrar inteligentes mecanismos compensatórios de protecção dos indivíduos.

 
At 10:40 da manhã, setembro 23, 2006, Anonymous Anónimo said...

"seria mais inteligente que pensasse como conferir garantias institucionais aos losers do que os tentar convencê-los, através de discursos encantatórios, do valor metafísico do "risco" e de como é sedutora a vida ao sabor do vento da incerteza radical."


Mas desde Milton Friedman, Reagan e Thatcher que tem vido a resultar, com mais ou menos refluxos. Mas o mundo económico é hoje incomparevelmente mais livre e desregulado que há 30 anos atrás.

 
At 4:06 da tarde, setembro 23, 2006, Blogger Hugo Mendes said...

Depende do que quer dizer com "resultar", e sobretudo para quem "resulta". Que "resulte" para muitos, nao duvido. A minha preocupaçao é para quem nao "resulta", e o que se pode fazer sobre isso.

 
At 3:31 da tarde, setembro 24, 2006, Blogger AChata said...

Muitos é um termo tão relativo.

As populações Africanas que, empurrados pela fome, estão a "invadir" a Europa são muitos.
As pessoas que nos países Europeus sobrevivem com ordenados de miséria e recorrendo ao crédito (que um dia lhes cai em cima) são muitas.
Na China, apesar do florescente desenvolvimento económico, as pessoas que trabalham em troca de uma tijela de arroz são muitas.
A população mundial tem crescido MUITO e sobretudo nos meios mais desfavorecidos economicamente.
Ou seja somos muitos e a riqueza pertence apenas a muito poucos.
Isto não é uma critica, é uma constatação da realidade.

Para onde vamos?

 

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