domingo, setembro 24, 2006

Casa emprestada

Desde ontem que estou aqui, em discussão acesa no blog do Timshell.

sábado, setembro 23, 2006

Affirmative action

Poison Ivy

"American universities like to think of themselves as engines of social justice, thronging with 'diversity'. But how much truth is there in this flattering self-image? Over the past few years Daniel Golden has written a series of coruscating stories in the Wall Street Journal about the admissions pratices of America's elite universities, suggesting that they are not so much engines of social justice as bastions of privilege. Now ha has produced a book - 'The Price of Admission: How America's Ruling Class Buys Its Way into Elite Colleges - and Who Gets Left Outside the Gates' - that deserves to become a classic. Mr Golden shows that elite universities do everything in their power to admit the children of privilege. If they cannot get them in through the front door by relaxing their standards, then they smuggle them in through the back. No less than 60% of the places in elite universities are given to candidates who have some of extra 'hook', from rich of alumni parents to 'sporting prowess'. The number of whites who benefit from this affirmative action is far greater than the number of blacks. (...)"

("The Economist", Sept 23rd-29th, p.52)

quinta-feira, setembro 21, 2006

Sugestão da semana


Punir les pauvres: le nouveau gouvernement de l'insécurité sociale, de Loïc Wacquant (Marseille, Agone, 2004)

Há, para exagerar um pouco, duas formas de reduzir o desemprego de forma sustentada (para além, claro, da opção de delapidar as regulações laborais que evitam o trabalhador de ficar à mercê do empregador): qualificar jovens e menos jovens, geralmente fazendo alongar a escolaridade e mantendo a formação contínua como uma oportunidade sempre aberta para os adultos; ou prender jovens e menos jovens, fazendo inchar a população prisional ou para-prisional a níveis até há três décadas julgados como inconcebíveis. No caso norte-americano, a segunda estratégia tornou-se a opção (orgulhosamente) prioritária desde os meados dos anos 70 do século passado - mesmo que encarcerar seja por vezes mais caro que educar/formar. O sociólogo Loïc Wacquant percorre os momentos e as políticas desta estratégia, lançando luz sobre o outro lado das propostas liberais de gestão da (in)segurança social e profissional. Ou melhor, para citar o autor, "liberais-paternalistas": liberais para os ricos, paternalistas (e punitivas) para os pobres.

Resumo:

"Le tour résolument punitif pris par les politiques pénales lors de la dernière décennie ne relève pas du simple diptyque " crime et châtiment ". Il annonce l'instauration d'un nouveau gouvernement de l'insécurité sociale visant à façonner les conduites des hommes et des femmes pris dans les turbulencesde la dérégulation économique et de la reconversion de l'aide sociale en tremplin vers l'emploi précaire. Au sein de ce dispositif " libéral-paternaliste ", la police et la prison retrouvent leur rôle d'origine : plier les populations indociles à l'ordre économique et moral émergent. C'est aux États-Unis qu'a été inventée cette nouvelle politique de la précarité, dans le sillage de la réaction sociale et raciale auxmouvements progressistes des années 1960 qui sera le creuset de la révolution néolibérale. C'est pourquoi ce livre emmène le lecteur outre-Atlantique afin d'y fouiller les entrailles de cet État carcéral boulimique qui a surgi sur les ruines de l'État charitable et des grands ghettos noirs. Il démontre comment, à l'ère du travail éclaté et discontinu, la régulation des classes populaires ne passe plus par le seul bras, maternel et serviable, de l'État social mais implique aussi celui, viril et sévère, de l'État pénal. Et pourquoi la lutte contre la délinquance de rue fait désormais pendant et écran à la nouvelle question sociale qu'est la généralisation du salariat d'insécurité et à son impact sur les espaces et les stratégies de vie du prolétariat urbain. En découvrant les soubassements matériels et en démontant les ressorts de la " pensée unique sécuritaire " qui sévit aujourd'hui partout en Europe, et singulièrement en France, ce livre pointe les voies possibles d'une mobilisation civique visant à sortir du programme répressif qui conduit les élites politiques à se servir de la prison comme d'un aspirateur social chargé de faire disparaître les rebuts de la société de marché."

domingo, setembro 17, 2006

E se em vez de pregar aos convertidos...?


O número do "The Economist" desta semana traz um suplemento dedicado ao estado actual da economia global. No meio do retrato sobre o impacto do crescimento das emerging economies, sobretudo os gigantes China e India, nas dinâmicas macroeconómicas globais, e em particular nas economias dos países ricos, lê-se que os "Governments may need to harness the tax and benefit system to compensate workers who lose from globalization" (p.10). Apesar dos niveis de inflação terem mantido os preços baixos - exceptuando a "bolha" no mercado da habitação -, o semanário (insuspeito de inclinações esquerdistas) não esquece que a globalização produz winners e losers, e que estes são tipicamente os trabalhadores não-qualificados, que vêem os seus salários reais estagnar ou baixar. Enquanto a esquerda nutrirá genuína preocupação por estes elementos que suportam o grosso das consequências negativas da abertura transnacional dos mercados (ao contrario da classe média-alta e das elites), há uma razão pragmática para que a direita não se limite ao discurso da "responsabilidade individual": é que estes serão elementos mais receptivos aos reptos proteccionistas e anti-globalizadores. Se à direita se luta militantemente contra o espectro do proteccionismo, seria mais inteligente que pensasse como conferir garantias institucionais aos losers do que os tentar convencê-los, através de discursos encantatórios, do valor metafísico do "risco" e de como é sedutora a vida ao sabor do vento da incerteza radical. Este discurso é muito bonito - mas para a larga maioria sem recursos económicos e culturais é uma conversa completamente oca e, no limite, é o mesmo que pregar para convertidos.

sábado, setembro 16, 2006

A ler


Os artigos recolhidos no "Courrier International" desta semana sobre a esquerda.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Uma das coisas que era importante que se percebesse à esquerda

Há muitos à esquerda que teimam em rejeitar as práticas de avaliação da função pública (a polémica na ordem do dia coloca os holofotes sobre os professores, mas isto também podia ser dito de médicos ou juizes) e que acham que isto é o caminho para a privatização destes serviços. Mas isto é falso: a instituicionalização de práticas de avaliação, para além de procurar garantir níveis de qualidade essencial em áreas onde o Estado mantém uma posição de monopólio ou quase, serve precisamente para evitar a privatização dos serviços. Se se deixasse degradar a qualidade de serviços públicos essenciais - que é o que acontece se a avaliação não for instituída e se a cultura profissional destes "corpos" não interiorizar o seu carácter indispensável -, a insatisfação social deixaria de se limitar às elites "individualistas possessivas" (para quem a referência simbólica ideal, mesmo que subsconsciente, é ainda a do tutor pessoal e do médico de cabeceira, como nos outros tempos, antes da educação e a saúde serem reconhecidos como bens públicos essenciais e de se processar à sua massificação sob o imperativo de níveis razoáveis, mesmo que cronicamente insuficientes, de equidade) e poderia invadir as classes médias, abrindo efectivamente a porta a uma mudança radical na forma de financiamento/prestação desses serviços.
Aqui passa-se algo semelhante ao que se passa na gestão das finanças públicas: a preocupação da esquerda em diminuir o défice estatal nao é o "caminho para o fim do Estado social", mas precisamente a forma de o salvar. Ao contrário do que ocorria no passado, é a esquerda que pretende por as contas públicas no sítio e a direita a que se dá ao luxo de esbanjar dinheiro irresponsavelmente, para que um dia possa dizer que é preciso cortar radicalmente nas transferências sociais porque o modelo vigente faliu - a conhecida estratégia do "quanto pior melhor".
Era absolutamente crucial que à esquerda ficasse claro que nem tudo é o que parece - ou seja, que avaliação não tem nada a ver com privatização, sendo, num certo sentido, o seu contrário -, e que a demagogia de pequenos grupos que se preocupam mais com as suas elites aristocráticas do que com os "pequenos" que dizem representar não destruisse a margem de manobra reformadora que ainda existe. Caso contrário, a esquerda fará o favor de dar razão à direita quando esta argumenta que quando o Estado cresce excessivamente, fica inevitavelmente refém de grupos corporativos que, sob a capa da defesa do "interesse público", são capazes de proteger os interesses, sobretudo os mais aristocráticos, à custa - porque depois o dinheiro não chega obviamente para tudo nem para todos, e a acusação de que todo e qualquer racionamento se deve a mero "economicismo" é completa e infantil irresponsabilidade política - dos que não se podem defender da mesma forma, por incapacidade de mobilização, organização e/ou capacidade de negociação. Por alguma razão temos dos professores, médicos e juízes mais bem pagos da Europa, num dos países mais pobres e onde as desigualdades atingem os níveis mais altos. Será que isto não pesa na consciência de algumas forças "sindicais"?
Não espero o mea culpa da sua parte, mas se muitos à esquerda conseguissem compreender o conservadorismo que se esconde por detras de discursos de "defesa dos trabalhadores" (neste caso, professores, médicos ou juízes, que dificilmente encaixam na imagem daqueles que precisam de sindicatos para se defender da "exploração capitalista"), já não era mau.

sexta-feira, setembro 08, 2006

A ineficácia da redistribuição em Portugal

Depois de uns dias em menor actividade, espero voltar a escrever com mais frequência. Em jeito de rentrée, ficam alguns números sobre as desigualdades na UE, onde sobressai a péssima performance de Portugal. Os valores referem-se à diferença entre os rendimentos dos 20% mais ricos (quintil superior) e dos 20% mais pobres (quintil inferior). Na Suécia, os indivíduos pertencentes quintil superior têm rendimentos em média 3,3 vezes superiores aos do quintil inferior. Portugal aparece na cauda da lista, e ainda longe dos países que o precedem imediatamente, no caso, a Itália e a Grécia. Decididamente, a capacidade redistributiva não é o forte do Estado português - algo que devia levar a esquerda a reflectir seriamente, e em particular a esquerda com ligação ou "tradição" sindical.

Média da UE 25 - 4,8
Suécia - 3,3
Dinamarca - 3,4
Noruega - 3,6
Áustria - 3,8
Bélgica - 4,0
Holanda - 4,0*
França - 4,2
Alemanha - 4,4
Irlanda - 5,0
Polónia - 5,0*
Espanha - 5,1
Reino Unido - 5,3*
Itália - 5,6
Grécia - 6,0
Portugal - 7,2

Os dados são do Eurostat 2004, excepto os assinalados com o asterisco, referentes a 2003. Os valores são retirados do Observatoire des Inegalités.

terça-feira, setembro 05, 2006

A falta de memória e a falta de coragem


Paulo Pedroso escreve n'"O Canhoto":

"Um dos maiores dramas dos sequestrados colombianos e da mais famosa de entre eles, Ingrid Betancourt, levada quando era senadora e candidata presidencial apresentada pelo pequeno partido ecologista colombiano e ameaçava o establishment e os senhores da droga é que nem os seus captores nem as autoridades do país se sentem excessivamente desconfortáveis com a situação. Outro é o de que o tempo vai passando e nos vamos esquecendo do seu sofrimento. Pode haver quem veja nestes sequestros "guevarismo"? E que dizer de quem trata tais sequestradores, tal como o faz o PCP, convidando-os para a sua liturgia internacionalista anual e dando-lhes, espaço para propaganda? Que tal renovarmos o nosso empenhamento cidadão na campanha internacional pela sua libertação?"

Tenho alguns amigos colombianos; à esquerda ou à direita, percebi - e habituei-me - com o tempo quão difícil era discutir política com eles, sobretudo quando a conversa encostava mais à esquerda. E' fácil perceber porquê: quando o peso (simbólico e na prática) da anti-política - leia-se "luta armada" - é tao poderoso numa sociedade como o é na Colômbia, a política só pode sobreviver no mais vazio e, num aparente paradoxo, elementar dos registos. O "elementar" é o consenso, entre aqueles que da esquerda à direita aceitam as regras do jogo democrático, do respeito das liberdades básicas do ser humano; o "vazio" decorre do facto de haver pouco mais, politicamente, a discutir do que este elemento, afinal, tão a-político.

Que uma qualquer "associação" ou "apoio" da "esquerda" às FARC não seja visto como uma atitude moral e politicamente vergonhosa diz muito do laxismo e falta de coragem de quem continua a não aprender nada com a história. E quem não aprende nada com ela, já se sabe, está condenado a repeti-la.

Se Ingrid estivesse livre, não precisava de ser a sua foto a 'olhar' as crianças que jogam à bola em campos de areia colocados em frente à Câmara de Paris. Ela, cidadã da Cidade-Luz, e, sobretudo, do mundo livre e democrático, podia estar lá, em pessoa.

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