Sugestão da semana
The Impact of Inequality: How to Make Sick Societies Healthier, de Richard Wilkinson (Nova Iorque, The New Press, 2005, 355 p.)Ao longo das últimas semanas, dedicámos alguns posts às desigualdades de rendimentos, e vimos que têm aumentado em várias sociedades ocidentais no último quarto de século. À direita, é bastante fácil desvalorizar a relevância destes dados: se a esquerda não desse tanta importância à corrosiva acção da inveja, a questão das desigualdades seria um não-assunto, dado que o interessa é ficarmos ’todos’ mais ricos - mesmo que o grosso, senão a quase totalidade da riqueza acumulada fique nas mãos de poucos. Ironicamente, a direita liberal, individualista e possessiva, deixa entrar um estranho "comunitarismo" pela porta dos fundos para justificar esta posição: por que motivo os mais pobres deviam ficar contentes pelos ricos ficarem mais ricos, se não houver uma dimensão "colectiva" ou "comunitária" que leva os primeiros a partilhar subjectivamente do aumento da riqueza dos segundos? E, já agora, quem é que mais faz, senão a própria direita, ao legitimar o peso "natural" da inveja, do egoísmo e outros sentimentos "demasiado humanos" nas relações interpessoais?
Deixemos porém o argumentario filosófico para outra altura, porque a discussão não se pode resumir ao problema normativo da crítica e/ou justificação das desigualdades em si, mas deve obrigatoriamente incorporar as consequências empíricas identificáveis da existência de desigualdades. Ou seja, se as desigualdades forem responsáveis, ou - quando o nexo causal for mais difícil de identificar - estiverem pelo menos alta e sistematicamente correlacionadas com efeitos individuais e colectivos ‘negativos’ (por exemplo, violência inter-pessoal, crime, mortalidade, etc.), então a discussão sobre o impacto das desigualdades, e a necessidade de as reduzir ou manter a níveis relativamente baixos, ganha outros contornos.
O livro de Richard Wilkinson, que me vai servir de apoio para alguns exemplos nos posts dos próximos tempos, é um impressionante tour de force (alguma editora portuguesa interessada na tradução?...) na tentativa de demonstrar, com a ajuda do trabalho feito em diferentes áreas de investigação, como a desigualdade impacta de forma inequívoca e tentacular na qualidade de vida, no capital social, ou na saude (ou falta de dela) dos grupos e dos indíviduos. Aqui, os dados relativos ao impacto das desigualdades sociais nos níveis de morbilidade e de mortalidade das populações são particularmente importantes e impressionantes, porque se muitos desconfiam das respostas das pessoas a certas questões mais normativas nos inquéritos (onde acaba a resposta genuína e onde começa a resposta "politicamente correcta", por exemplo?), o corpo humano e os seus orgãos, esses, não mentem: se conseguirmos explicar como funcionam os processos de tradução psico- e sócio-biológica, podemos começar a perceber porque duas décadas de estudos nacionais e internacionais, de forma suficientemente sistemática, porque é que é nos países com menores níveis de desigualdade económica (passado um limiar mínimo de prosperidade, claro) que as pessoas morrem mais tarde, que a violência urbana e familiar é menor, ou que a vida cívica e "comunitária" é mais robusta.
No centro de todas estes problemas sociais, está a questão da "privação relativa", que é muito mais complexa e subtil do que a da "privação absoluta". Aqueles que, à direita, continuam a pensar em função desta segunda lógica, passam, arrisco-me a dizer, completamente ao lado da análise e compreensão dos problemas - bem como da possível correcção (se nela estivessem interessados, claro).

1 Comments:
Este blogue é mesmo excelente!
Parabéns, e continuação de um bom trabalho!
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