Terça-feira, Julho 04, 2006

Sobre a "tragédia da redistribuição"


Este quadro apresenta o Indice de Pobreza Humana (IPH-2) que consta do Relatório para o Desenvolvimento de 2004 (produzido no âmbito do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas), e de que já havíamos falado aqui (ver terceira coluna do quadro desse post; no presente quadro, retirado daqui, figuram os quatro critérios em separado; recordo que todos valem 25% para a classificação final).
Se recordarmos os três "mundos do capitalismo de bem-estar", na clássica definição de Gosta Esping-Andersen (de quem já falámos aqui), vemos que eles estão aqui bem desenhados (convém recordar que o IPH-2 e a tipologia de Esping-Andersen não têm uma origem comum: se há sobreposição, isto apenas mostra a relevância analítica e empírica da tipologia do autor dinamarquês). Se descontarmos o Luxemburgo (que é mais uma "cidade-Estado" do que propriamente um país) e o Japão (que não entra na tipologia original), temos entao os países "nórdicos" (Suécia, Noruega, Finlândia e Dinamarca, juntamente com a Holanda, que partilha algumas características do modelo); depois os países do modelo "continental" (Alemanha, França, com a Bélgica um pouco mais abaixo), misturado com os da Europa do Sul (Espanha e Itália), e por fim, com os piores desempenhos, os países do modelo liberal "anglo-saxónico" (Canadá, Austrália, Reino Unido, Irlanda e EUA).

Isto seria uma total, completa e elementar trivialidade se cada vez que abrissemos os blogues de direita a "redistribuição" não fosse sistematicamente apelidada de "trágica", e como sendo culpada pela reprodução ou aumento da pobreza. Ora, não só os países nórdicos são os mais redistributivos do mundo - e falo de investimentos redistributivos altamente progressivos, e não apenas do aparente oxímoro que é a "redistribuição regressiva", que acontece em muitas situações do modelo continental (e que promove o tal "welfare for the rich" que contribui para as dívidas públicas) -, como são altamente competitivos na economia global (e, já agora, têm as mais altas taxas de sindicalização). No mundo da direita, este quadro (e muitos outros do mesmo género) não devia pura e simplesmente existir. A realidade é sempre mais complicada que os dogmatismos a priori. Não é isso que passam a vida a dizer à esquerda?

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