segunda-feira, julho 31, 2006

A diplomacia existe sobretudo para negociar com os inimigos

Do editorial do The Guardian de ontem:

"George W Bush and Tony Blair in their joint press conference on Friday restated their shared view that Haifa and Bint Jbeil are front lines in the same anti-terror war that British and American forces are fighting in Iraq and Afghanistan. They believe that Tehran and Syria meddle against them there as they do against Israel. Blair and Bush are right to lament that the secular, free democracies in the Middle East - Lebanon, Israel, Turkey - are too few. They are right also that Islamist terrorism seeks no accommodation with the West and sows chaos and destruction opportunistically wherever the soil is fertile.
But they are wrong if they think terrorists can be defeated by military power alone, especially when it is used as indiscriminately as it is by Israel. They are more wrong still if they think diplomatic isolation will force the states that sponsor terror to mend their ways.
In Washington right now, dialogue with Tehran and Damascus is impossible. In London, however, it is not. Tony Blair recognised on Friday that regime change in Iran and Syria was not a practical foreign policy aspiration. That leaves a door open to constructive engagement. Mr Blair has visited Damascus and President Assad has been to Downing Street. In order to bring about a ceasefire in Lebanon, Britain must now concentrate its fullest diplomatic effort on reopening that channel of communication. The prospect of a straight swap of the occupied Golan Heights for Syrian recognition of Israel and a bilateral peace treaty must be revived. Ultimately, Syria could then become a partner in negotiations over a two-state solution to the Palestinian question. But that comes later. For now, it is leverage over Hizbollah that is needed.
None of this is easy to achieve, but it is possible. There is no alternative. If it means dealing with rogue regimes, so be it. Lebanon must be saved from destruction."


Bush e Blair culpam a Síria e o Irão pelo apoio ao Hezbollah. De seguida, exigem ao governo libanês o controlo da milícia armada. Ora, não so isto é efectivamente inexequível - se o governo libanês o pudesse fazer não se tinha chegado até aqui - como é estranhamente míope. Se os reais culpados são a Síria e o Irão, porque é que os EUA e a Inglaterra não se deixam de mensagens enviadas a Damasco e a Teerão pela televisão e procuram criar um espaco negocial sobretudo com o regime sírio? E aqui que se vê a fraqueza diplomática de Washington perante os regimes que identifica como apoiantes ao terrorismo. A questão agora é: será que existe, da parte dos EUA e de Israel, algum interesse em negociar o que quer que seja sobre os Montes Golã?

"War is peace, freedom is slavery, ignorance is strengh"

Mário Pinto, na sua crónica "Público" de hoje (link só para assinantes), intitulada "Não haverá paz sem virtudes", sobre a "guerra ideológica" em Espanha iniciada por Zapatero, escreve:

"Por uma reedição da experiência do despotismo iluminado, ou seja, pela utilização autoritária do poder político para mudar os paradigmas antropológicos de há milénios, que nunca foram formalmente referendados porque simplesmente vieram do consenso do fundo dos tempos. O exemplo espanhol é impressionante de agressividade, repetindo, "mutatis mutandis", os excessos dos "rojos" que provocaram a guerra civil que trouxe o franquismo (...) Os direitos humanos que reclama, nesta concepção, já não são os que estão inscritos na natureza humana, algo que antecede a decisão do homem, seja ele o poder totalitário de um ditador, o poder das maiorias, ou o que se gera através da manipulação da opinião pública. Como dizia um ilustre bispo espanhol: "desta forma é o ser humano quem decide e quem dá explicação absoluta de si mesmo, pelo que, em rigor, deixa de haver direitos humanos".

Deixem ver se percebi bem: os direitos humanos são aqueles que não são decididos por humanos? Ou apenas por alguns 'ilustres' humanos, que nos dizem qual deve ser a "natureza humana", a tal que resulta supostamente do "consenso do fundo dos tempos" (!)? Dado que esta dimensão está fora do domínio de arbítrio humano e, por isso, da democracia política, a intervenção legislativa nestas questoes é por definição "autoritária": que Zapatero seja um primeiro-ministro em exercício e democraticamente eleito não interessa rigorosamente nada a Mário Pinto: ele agirá sempre como um ditador (aliás, se ele fosse efectivamente um ditador era provável que não se metesse por estes caminhos, não é? ai que saudades do passado...), porque esse terreno está para além da política - e se as regras nele vigentes vieram de um "consenso do fundo dos tempos", então elas são necessariamente boas, justas, e virtuosas. Só pode. Não podemos arbitrá-las, porque a 'História', caucionada logicamente por um outro 'poder', já o fez por nós.

"O cidadão, hoje, já não é postulado como a pessoa autónoma e, consequentemente, culta e diferente, liberta do absolutismo do poder do Estado, responsável por si e pelos outros; é, sim, o indivíduo "libertado" de necessidades materiais e de responsabilidades pessoais, isso sim, e com o dominante anseio do consumo hedonista."

Portanto o uso da responsabilidade individual no controlo das decisoes biopolíticas é afinal de contas um mero "consumo hedonista", e não um real direito humano que as pessoas devem poder aprender a exercer; e a definição da 'natureza humana' por um punhado de 'ilustres' iluminados é que faz do cidadão uma "pessoa autónoma e, consequentemente, culta e diferente". Desde que esses 'déspotas iluminados' não emanem do Estado, está tudo bem. Por outras palavras, a liberdade só existe quando não pode ser exercida - porque nesse caso não é liberdade, é hedonismo (also known as "licenciosidade").

Resumindo o que Mário Pinto nos quer dizer: o real paternalismo religioso de uns é o que afinal, contra tudo o que se possa pensar, promove a liberdade individual; e a acção do Estado, acusado de 'libertar' os indivíduos das necessidades e responsabilidades, é que é, afinal de contas, paternalista (e, para mais, 'força' os indivíduos ao hedonismo); é o paternalismo que promove a liberdade e é a acção libertadora que promove o paternalismo. Orwell esboçaria seguramente um sorriso. Porque é afinal esta "ideologia pós-moderna" (um artigo destes tinha obrigatoriamente de incluir uma alfinetada ao 'pós-moderno', que é paranóia exclusiva dos seus defensores e dos seus detractores) que é perfeitamente "obscurantista" (!) - não a outra que define direitos humanos não decididos por humanos (ou, se quiserem, decididos por não-humanos) em nome dos 'paradigmas antropológicos de há milénios'. Essa sim, é perfeitamente translúcida.

Afinal já percebi. Eu não sei é se muitos perceberam quais são as reais consequencias da modernidade política e cultural, já para não dizer a económica (o tal reino das "necessidades" incomunicável, pensa-se, com o das "virtudes"). Porque, sim, caro Mário Pinto, é mesmo isso que está em causa: 'libertar' as pessoas dos "paradigmas antropológicos de há milénios". E na medida em que o Estado, como instrumento e não como fim, puder contribuir para essa libertação, a sua acção é indispensável.

sexta-feira, julho 28, 2006

Sobre o "anti-semitismo"

A acusação de anti-semitismo a alguém que não dá carta a branca a toda e qualquer estratégia do governo isrealita voltou em força, como volta sempre nestas alturas. Escuso-me a fazer grandes comentários sobre uma questão que me deixa verdadeiramente mal-disposto, tal a indigência intelectual e ética inscrita nesta prática recorrente. Recordo apenas que anti-semitismo é, nas palavras da insuspeita Esther Mucznik, a "teoria que defende que os judeus são uma raça inferior". Sejamos sérios: alguém que questione o quer que seja sobre a estratégia seguida pelo governo isrealita é da opinião (mesmo que implícita) que os judeus são uma "raça inferior" (seja lá o que isso for, eu que não sei o que é uma "raça" para além de um conjunto de características fenotípicas)? Façam a pergunta várias vezes, em voz alta, se for preciso.
Isto é tanto mais surreal quanto os que andam para aí a distribuir o epíteto de "anti-semitas" a torto e a direito são muitos dos que se indignam visceralmente contra o que chamam de "politicamente correcto" expresso, por exemplo, no facto de serem "obrigados", na vida publica, a utilizarem determinados termos para se referirem aos negros, ao seu modo de vida, etc; detestam e acham um exagero integrista ("multiculturalista") que, por não seguirem o tal "politicamente correcto", sejam por vezes apelidados de "racistas"; exaltam-se contra o "policiamento da linguagem" e contra o facto de já não se poder dizer o que quer seja sobre "eles". Mas estão prontos a cometer o erro simétrico de chamar "anti-semita" a todos os que deles discordam sobre toda e qualquer questão que envolva Israel. Se se olhassem ao espelho, talvez alguma coerência e racionalidade (aquela propriedade do intelecto que luta contra o fechamento do mundo entre o "dogma" e a "heresia") tivessem hipóteses de ver a luz do dia.

quinta-feira, julho 27, 2006

Nos últimos dias...

...tenho estado aqui, na caixa de comentários. Depois volto para dizer algumas coisas sobre este tipo de debates.

domingo, julho 23, 2006

Aí esta a "retoma"

"Portugal ganhou 200 milionários no ano passado
O número de milionários em Portugal aumentou de 10.800 em 2004 para 11 mil no ano passado, noticia este sábado o Expresso citando o estudo «World Wealth Report 2006» da Cap Gemini e Merrill Lynch."

sábado, julho 22, 2006

Coisas que me intrigam e chocam

Que num país próspero haja pessoas, todos os anos, a morrer por causa do calor.

"Punição adequada"


Para o caso de não terem reparado, é o nome da intervenção militar isrealita no Líbano. Só faço uma pequena pergunta: haverá algum momento a partir do qual ela pode passar a ser, eufemisticamente, "inadequada"? Aparentemente não:

"Nous ne pouvons pas nous permettre de ne pas sortir de cette guerre victorieux, martèle Shaul Arieli, un colonel de réserve : il nous faut frapper fort, au risque de toucher les civils parmi lesquels se cachent les terroristes, afin de rétablir notre capacité de dissuasion."
(detalhe menor: que se atinjam os civis é apenas um risco, não uma certeza)

Esta é a velha teoria da dissuasão: "se lhe dermos com muita, muita, muita força, eles não voltam a fazer o mesmo". Mas que raio: se a história mostra que - seja por fanatismo, seja por desespero, seja por honra, seja por uma explosiva mistura de tudo isto - "eles" voltam sempre e sempre, não significa isto que a teoria (no Médio Oriente pelo menos) é falsa? Não será esta teoria antes pura denegação (ou ma-fé, dirão alguns)?...

* foto roubada ao Causa Nossa

"La Sarkoïsation des esprits"

O já tinha feito a devida referência no Agreste Avena, mas vale a pena relembrar o trabalho político feito por Lilian Thuram, ainda recentemente vice-campeão do Mundo pela selecção francesa e que, aos 34 anos, ainda vai a tempo de trocar a infâme Juventus pelo Barcelona. Naquele que é provavelmente o país mais "ideológico"do mundo ocidental (para bem e para mal, dirão), Thuram é dos futebolistas que melhor sabe fazer uso do capital político que os futebolistas podem mobilizar: membro do Haut Conseil à l'Intégration, foi um dos primeiros a tomar posição contra os excessos políticos de Sarkozy em resposta aos motins nos banlieues de Novembro do ano passado. Artigo no "Le Monde" aqui.

A ler

"Uma no cravo...", no Blogoexisto.

sexta-feira, julho 21, 2006

Porque afinal a redistribuição é efectivamente uma tragédia

...para os que fazem parte do percentil mais rico. Apesar do Miguel Madeira apanhar as coisas do Paul Krugman sempre antes de mim, aqui vai o excerto de um artigo publicado no "New York Times" de 14/07, e que fala sobre questões que têm aqui vindo a ser abordadas:

"I’d like to say that there’s a real dialogue taking place about the state of the U.S. economy, but the discussion leaves a lot to be desired. In general, the conversation sounds like this:
Bush supporter: «Why doesn’t President Bush get credit for a great economy? I blame liberal media bias.»
Informed economist: «But it’s not a great economy for most Americans. Many families are actually losing ground, and only a very few affluent people are doing really well.»
Bush supporter: “Why doesn’t President Bush get credit for a great economy? I blame liberal media bias.” ...
(...)
Here’s what happened... The U.S. economy grew 4.2 percent, a very good number. Yet ... real median family income — the purchasing power of the typical family — actually fell. Meanwhile, poverty increased, as did the number of Americans without health insurance. So where did the growth go?
The answer comes from the economists Thomas Piketty and Emmanuel Saez... They show that even if you exclude capital gains from a rising stock market, in 2004 the real income of the richest 1 percent of Americans surged by almost 12.5 percent. Meanwhile, the average real income of the bottom 99 percent of the population rose only 1.5 percent. In other words, a relative handful of people received most of the benefits of growth.
(...)
In short, it’s a great economy if you’re a high-level corporate executive or someone who owns a lot of stock. For most other Americans, economic growth is a spectator sport."


E ainda lhe chamam trickle down economics.

quinta-feira, julho 20, 2006

"Luta de classes" por outros meios

O Ricardo levantou no meio de uma discussão acerca da estratégia económica centrada exclusivamente na prioridade dada ao consumidor um paradoxo importante:

"Centrar a política económica nos ganhos do consumidor pode ser um pensamento viciado porque à medida que o produto é vendido a menor custo (independentemente da qualidade) o impacto que isso tem no mercado de trabalho também pode - não estou a dizer que isso acontece, mas que se não tivermos em conta outros factores, pode - estar a diminuir o poder de compra e a encolher o próprio mercado (...) É que, no fundo, o trabalhador é o consumidor e vice versa."

O que Ricardo diz é inatacável do ponto de vista lógico: os dois papéis estão 'reunidos' na mesma pessoa. Se privilegiamos o primeiro em detrimento do segundo criamos uma situação de double-bind que deixa as pessoas razoavelmente desorientadas e incapazes de seguir estratégicas colectivas. Ora, porque é que os neo-liberais não estão minimamente preocupados com este facto incontornável? Não são eles tambem trabalhadores e consumidores? Serão eles mais corajosos e capazes de enfrentar o trade-off? Ora, a resposta é simples: na prática, os fervorosos adeptos desta ideia não vivem este dilema. Se no abstracto, as pessoas são as mesmas, empiricamente, não o são de todo.

Vale a pena recordar que os trabalhadores mais atingidos pelas políticas de liberalização são, invariavelmente, os pouco qualificados e os mais pobres (os que ocupam o mercado de trabalho 'externo'); são eles que pagam a factura e correm o sério risco de ser atirados para o desemprego ou terem de aguentar empregos mal pagos e precários - mesmo que ganhem alguma coisa como consumidores (e isto já é duvidoso se o seu poder de compra se degradar; podem comprar a crédito, mas isto faz disparar o níveis de endividamento).
Os profissionais mais qualificados e mais bem pagos (os 20%/30% do topo), os que não sofrem na pele a degradação dos mercados de trabalho 'externos' pela 'carapaça securizadora' que protege os mercados de trabalho 'internos', estão sempre bem (e isto mesmo que haja maior competitividade e maior circulação - e logo, mais incerteza - nos cargos mais elevados das hierarquias organizacionais), e os seus salários tenderão mesmo subir enquanto a maioria vê o seu poder de comprar estagnar ou diminuir. Aposto que se fizerem uma sondagem, é aqui que estão concentrados os true believers da "divinização do consumidor" - os únicos que não estão sujeitos a qualquer trade-off. Para essa minoria, o círculo é efectivamente virtuoso.

Como dizia o malogrado J.K.Galbraith:

«In the modern economy we have a large professional community – lawyers, accountants, engineers, public servants, most academics I hasten to add – who are relatively secure. Social security, pensions, and farm legislation have rescued others from the cruel uncertainty of past times. All so favoured find services more readily available in recession, and, having fixed or relatively fixed incomes, they are protected by economic stagnation from inflationary price increases. No one, I repeat, is allowed to say that he or she favours recessive or stagnant economic performance. That is unmentionable; better to take a stand for sexual harassment. The satisfaction continues».

A questão essencial é, pois, que o preço a pagar pela "absolutização do consumidor" é assimetricamente distribuído pelos indivíduos e pelos grupos. É para redistribuir os riscos, os ganhos e as perdas que existe a redistribuição de rendimentos e a protecção social. Quando estas são residuais e/ou recuam, passa-se o que se passou nos EUA no último terço do século: o poder de compra dos 20% mais pobres regrediu; o das classes médias foi mantido apenas à custa da entrada das mulheres no mercado de trabalho (porque o poder de compra dos homens baixou); e os 20 por cento mais ricos viram o seu rendimento e riqueza subir em flecha.

quarta-feira, julho 19, 2006

Excelentes textos sobre o Médio Oriente

No "Avesso do Avesso" e na "Esquerda Republicana".

A pergunta do Timshel

O Timshel fez uma enorme simpatia, só comparável ao tamanho do desafio que me colocou. Estou a pensar no que vou responder.

A "excelência universitária" que nos anunciam

" (...) Veja-se que as exigências de publicação internacional que algumas universidades estão a colocar para o progresso na carreira de professor universitário (onde muitos dos catedráticos que estabelecem as regras não cumprem com essa exigência) pode levar a que um dia destes um docente altamente respeitado na indústria pela sua actividade, pelas suas inovações comercializadas no mercado e com patentes registadas venha a ser rejeitado pelos seus pares de universidade pelo simples facto de não ter artigos publicados em revistas internacionais que esses pares entendem fundamentais. A questão que coloco é se queremos um país e uma universidade de gente que crie riqueza e põe a mão na massa ou um país de investigadores-poetas."

Esta afirmação é verdadeiramente espantosa. João Carvalho das Neves, professor catedrático do Departamento de Gestão do ISEG, não nos está a propor, moderadamente, que, para além dos artigos publicados nas revistas de qualidade, os investigadores devam ser incentivados a produzir conhecimento e/ou artefactos tecnológicos que possam ser directamente ou indirectamente comercializados e, com isso, financiar a propria instituição (ou a eles próprios). Não: indignadíssimo, está a afirmar que só esta última dimensão deve contar para a alocação de prestigio e de poder universitario - e que a outra, a que consome a massa, não se atravesse, em caso algum, no seu caminho.

No dia em que isto acontecer exactamente desta forma, chamem-lhe o que quiserem. Mas não usem por favor a palavra "universidade". (mas, hélas, já fizeram precisamente isso à "ciência": agora chama-se "inovação").

terça-feira, julho 18, 2006

Algumas consequências das desigualdades económicas

Na semana passada referi este livro (ver recensão aqui), que procura reunir um conjunto de dados produzidos por estudos ao longo das últimas duas décadas sobre o impacto da desigualdade em varias dimensões da qualidade de vida. Durante este período, emergiu um conceito que tem funcionado como guarda-chuva analítico para a heterogeneidade de indicadores a que a ideia vaga de "qualidade de vida" se pode referir: o de "capital social".
O "capital social" procura captar a riqueza da vida associativa e comunitária e a sua importância para o bem-estar dos indivíduos, procurando medir, por exemplo, a proporção de pessoas que pertencem a associaçoes ou grupos voluntários, a taxa de participação em eleições, a quantidade e qualidade das relações próximas (familiares, amigos), o nível de confiança nas pessoas e instituições locais e nacionais, a frequência com que se lê jornais, etc.

À esquerda parece existir uma razoável desconfiança quanto ao seu substracto ideológico, dado que o conceito apela para a importância de elementos que fazem parte da textura de relações interpessoais e comunitárias constituintes da ’’sociedade civil’’; ou seja, o capital social seria tudo o que permite funcionar de ’’cola social’’, mas – e aqui esta seria a mensagem ideológica – fora da acção do Estado (mais grave ainda, a intervenção do Estado, esse monstro burocrático e impessoal, estaria, na pior das hipóteses, ainda por cima inversamente correlacionada com a intensidade do capital social).
O que Richard Wilkinson faz é procurar mostrar como o capital social não precisa de ser intepretado de forma conservadora, em particular se conseguirmos mostrar que ele esta fortemente correlacionado com os níveis de desigualdade de uma região ou país. Ou seja, Wilkinson faz o que Putnam, o autor que mais fez por colocar o conceito no topo das preocupações académicas e políticas, decidiu não explorar a fundo: perceber se o capital social diminui ou aumenta com os níveis de desigualdade económica. A resposta mais ou menos inequívoca é que a desigualdade faz mal ao capital social, ou seja, faz mal à qualidade da vida institucional e interpessoal.
Vejamos os dados relativos aos 50 estados norte-americanos, primeiro para os níveis de confiança interpessoal (resposta afirmativa à asserção "A maioria das pessoas tentariam aproveitar-se de mim se tivessem oportunidade para isso"), primeiro, e o nível de capital social (este a partir do locus classicus de Putnam, Bowling Alone (2000)), depois (clickar nas fotos para aumentar) . Ambas as correlações são bastante fortes: é nos estados onde as desigualdades económicas são mais altas que os níveis de confiança e o capital social são mais baixos.
Depois mostro como a mesma relação existe entre desigualdade e níveis de violência e hostilidade inter-pessoal.

sábado, julho 15, 2006

Calcio incompreensível

Sobre a sentença do "calciocaos":

"Os castigos abrangem também vários dos dirigentes implicados no caso. Luciano Moggi, ex-director-geral da Juventus, acusado de estar na origem do esquema, e antigo administrador Antonio Giraudo do clube ficaram inibidos de exercer funções desportivas durante cinco anos. As suspensões, ainda que por períodos inferiores, atingem também dirigentes dos outros clubes afectados pela decisão. Franco Carraro, que se demitiu recentemente da presidência da federação italiana de futebol, também foi suspenso (quatro anos e meio), o mesmo sucedendo a outros sete dirigentes federativos e árbitros envolvidos no esquema."

Para quem observa este processo à distância, o que é mais espantoso é que os directores desportivos directamente ou indirectamente responsáveis por, ou envolvidos neste escândalo não tenham sido, pura e simplesmente, irradiados do futebol. Como é que, se o que se passou foi dado como provado, daqui a 5 ou 10 anos estas pessoas podem voltar a exercer um qualquer cargo desportivo?

quinta-feira, julho 13, 2006

Até que enfim


"A Comissão Europeia quer encorajar e acelerar a entrada em circulação dos veículos a hidrogénio, no âmbito do esforço de redução das emissões de dióxido de carbono, um gás com efeito de estufa. (...) Sublinhando que os veículos a hidrogénio "vão ajudar a melhorar a qualidade do ar na Europa", o comissário para a Indústria, Günter Verheugen, considera que "as medidas propostas vão facilitar a introdução no mercado deste tipo de veículos". Este facto poderá "promover a competitividade europeia e melhorar o ambiente de forma significativa". O hidrogénio pode ser utilizado em carros, carrinhas e autocarros e não produz emissões de monóxido de carbono, dióxido de carbono ou partículas".

Sugestão da semana

The Impact of Inequality: How to Make Sick Societies Healthier, de Richard Wilkinson (Nova Iorque, The New Press, 2005, 355 p.)

Ao longo das últimas semanas, dedicámos alguns posts às desigualdades de rendimentos, e vimos que têm aumentado em várias sociedades ocidentais no último quarto de século. À direita, é bastante fácil desvalorizar a relevância destes dados: se a esquerda não desse tanta importância à corrosiva acção da inveja, a questão das desigualdades seria um não-assunto, dado que o interessa é ficarmos ’todos’ mais ricos - mesmo que o grosso, senão a quase totalidade da riqueza acumulada fique nas mãos de poucos. Ironicamente, a direita liberal, individualista e possessiva, deixa entrar um estranho "comunitarismo" pela porta dos fundos para justificar esta posição: por que motivo os mais pobres deviam ficar contentes pelos ricos ficarem mais ricos, se não houver uma dimensão "colectiva" ou "comunitária" que leva os primeiros a partilhar subjectivamente do aumento da riqueza dos segundos? E, já agora, quem é que mais faz, senão a própria direita, ao legitimar o peso "natural" da inveja, do egoísmo e outros sentimentos "demasiado humanos" nas relações interpessoais?
Deixemos porém o argumentario filosófico para outra altura, porque a discussão não se pode resumir ao problema normativo da crítica e/ou justificação das desigualdades em si, mas deve obrigatoriamente incorporar as consequências empíricas identificáveis da existência de desigualdades. Ou seja, se as desigualdades forem responsáveis, ou - quando o nexo causal for mais difícil de identificar - estiverem pelo menos alta e sistematicamente correlacionadas com efeitos individuais e colectivos ‘negativos’ (por exemplo, violência inter-pessoal, crime, mortalidade, etc.), então a discussão sobre o impacto das desigualdades, e a necessidade de as reduzir ou manter a níveis relativamente baixos, ganha outros contornos.
O livro de Richard Wilkinson, que me vai servir de apoio para alguns exemplos nos posts dos próximos tempos, é um impressionante tour de force (alguma editora portuguesa interessada na tradução?...) na tentativa de demonstrar, com a ajuda do trabalho feito em diferentes áreas de investigação, como a desigualdade impacta de forma inequívoca e tentacular na qualidade de vida, no capital social, ou na saude (ou falta de dela) dos grupos e dos indíviduos. Aqui, os dados relativos ao impacto das desigualdades sociais nos níveis de morbilidade e de mortalidade das populações são particularmente importantes e impressionantes, porque se muitos desconfiam das respostas das pessoas a certas questões mais normativas nos inquéritos (onde acaba a resposta genuína e onde começa a resposta "politicamente correcta", por exemplo?), o corpo humano e os seus orgãos, esses, não mentem: se conseguirmos explicar como funcionam os processos de tradução psico- e sócio-biológica, podemos começar a perceber porque duas décadas de estudos nacionais e internacionais, de forma suficientemente sistemática, porque é que é nos países com menores níveis de desigualdade económica (passado um limiar mínimo de prosperidade, claro) que as pessoas morrem mais tarde, que a violência urbana e familiar é menor, ou que a vida cívica e "comunitária" é mais robusta.
No centro de todas estes problemas sociais, está a questão da "privação relativa", que é muito mais complexa e subtil do que a da "privação absoluta". Aqueles que, à direita, continuam a pensar em função desta segunda lógica, passam, arrisco-me a dizer, completamente ao lado da análise e compreensão dos problemas - bem como da possível correcção (se nela estivessem interessados, claro).

terça-feira, julho 11, 2006

Um pequeno passo para o fim da vergonha?

"US says Guantánamo inmates have Geneva rights

The US today reversed policy when it said all detainees at Guantánamo Bay and all other prisoners in US military custody were entitled to protection under the Geneva conventions.
(...) The White House press spokesman, Tony Snow, today said the policy change, outlined in a new Pentagon memo, reflected the recent supreme court decision to block military tribunals set up by the US president, George Bush."

segunda-feira, julho 10, 2006

Em contra-mão

Em Inglaterra, os Conservadores de David Cameron estão a tentar ultrapassar o New Labour de Tony Blair pela esquerda. Efeitos da silly season?

Pena proposta: Euro 2008


Zinedine Zidane fez uma infantilidade de todo o tamanho e transformou o último jogo da sua carreira num episódio trágico-cómico de dimensão planetária. Obviamente, a FIFA só pode aplicar um castigo: obrigá-lo a continuar a jogar até ao Euro 2008 a disputar na Suíça e na Austria, de forma a pagar a dívida que tem para com os seus admiradores.

[Adenda: em vez de "punir" Zidane, a FIFA decidiu premiá-lo como melhor jogador do torneio. "Zizou" é, foi, era um jogador fenomenal, e fez um bom campeonato do Mundo, mas quem fez o que vemos na foto não pode ganhar semelhante distinção. Isto não passa de uma compensação amarga no primeiro dia da "era DZ" (Depois de Zidane)]

sábado, julho 08, 2006

Os campeões da pedinchice II

Mergulhos tramam Cristiano Ronaldo

O presidente do Comité Organizador do Mundial, o alemão Franz Beckenbauer, pediu ontem uma reunião com jogadores, treinadores e árbitros para tentar acabar com as simulações, que, na sua opinião, foram demasiado frequentes na prova. O português Cristiano Ronaldo terá perdido, segundo o director do Grupo de Estudos Técnicos (GTE) da FIFA, Holger Osieck, o prémio de Melhor Jovem Futebolista do Mundial2006, devido aos "mergulhos e simulações". Osieck reconheceu que o jovem internacional português, que ficou em segundo lugar, atrás do alemão Lukas Podolski, pagou o preço do seu comportamento no terreno de jogo. "O 'fair-play' é um factor a tomar em conta (na eleição). Os jogadores devem ser modelos e é verdade que fomos um pouco críticos (em relação a Ronaldo) neste aspecto", explicou, sublinhando, no entanto, não ser necessário qualificá-lo como "batoteiro", pois é "um jovem jogador, que pode cometer erros".

sexta-feira, julho 07, 2006

Faz hoje um ano...


...que 4 bombas explodiram em Londres, matando 52 pessoas.

"Free-rider" para uns, redistribuição para outros


Espantosa foto desavergonhadamente copiada daqui.

Os campeões da pedinchice

O Mundial de futebol ainda não acabou mas, independentemente da classificação final da selecção portuguesa, o resultado obtido tem que ser visto como especialmente honroso - para além de lisonjeiro, tendo em conta a qualidade do futebol praticado. O que a euforia legítima que se vive por agora não deve fazer esquecer é que na maior parte dos jogos (mas, hélas, Portugal não foge aqui à regra: este deve ter sido o torneio internacional mais entediante de que tenho memória) a qualidade do futebol da selecção foi mediano, por vezes medíocre - a equipa defende muito bem, mas para além do génio de Ronaldo, e com Deco fora de forma e Figo (apesar do seu profissionalismo e entrega exemplar) fora de prazo, falta-lhe real capacidade ofensiva para desequilibrar e abrir as defesas contrárias. Isso ficou absolutamente patente na segunda parte do jogo contra a França, onde Portugal primou pela quase total inépcia ofensiva. O jogo podia ter durado 5 horas; mas a probabilidade de Barthez ser batido era bem próxima de zero. Foi aqui, na hora da verdade (e não contra Angola, Irão e co.), quando Portugal precisava de recuperar a desvantagem perante um adversário poderoso, que um jogador como Ricardo Quaresma fez falta. Scolari, teimoso, não o quis convocar. Na quarta-feira, a sua imprevisibilidade e velocidade teria sido essencial para ultrapassar a defesa francesa.

Mas a principal nota da presença portuguesa - à parte do bom desempenho classificativo! - vai para a mania do constante simulacro de faltas e da pedinchice cada vez que um jogador português caía ao chão. E' a omnipresença desta atitude anti-desportiva - um misto de cinismo nouveau riche e de ingenuidade imbecil (os estádios estão apinhados de câmaras de TV, e os jogadores até podem conseguir enganar o árbitro uma vez, mas não mais) - que vai ficar na memória dos adeptos e espectadores não-portugueses. E a selecção, em compromissos futuros, pode vir a pagar por este irritante hábito dos jogadores procurarem arrancar faltas onde nada existe e de sistematicamente pedincharem a intervenção do árbitro, como se estivessem num qualquer encontro da Primeira Liga, onde estas acrobacias são prática corrente.

O próprio Scolari - que segundo alguns afinal não vai renovar o contrato com a FPF -, que já tem idade para não fazer certas figuras, achou por bem insinuar que o árbitro uruguaio tinha a lição bem estudada. Como o Filipe, eu sou dos que acham que o penalty assinalado é forçadíssimo e que, apesar de existir contacto - como Ricardo Carvalho admitiu e como as imagens mostram -, Henry (que considero ser o melhor avançado do mundo) aproveita para se lançar descaradamente para o chão. O que realmente denuncia o seu teatro é o movimento dos seus braços, em particular do esquerdo (rever lance aqui), erguido bruscamente como se o leve toque que existiu na sua canela equivalesse a uma carga brutal capaz de o atirar violentamente para o chão. O árbitro podia simplesmente deixar o lance prosseguir, e esta seria uma decisao legítima, tendo em conta a ambiguidade que o lance suscita. Provavelmente, de onde o árbitro estava, pareceu mesmo falta. Paciência. Henry, que tem fama de não se mandar para o chão, viu a sua (creio que justa) "normal" honestidade premiada, e arrancou um penalty onde Cristiano Ronaldo, que tem a fama inversa, não conseguiria provavelmente nada. E' assim: a imagem conta.

Mas nem o contexto nem a "cabeça quente" justifica a boçalidade de Scolari, que, se queria enviar alguma mensagem e mostrar que a ele não o "enganam", podia tê-lo feito com discrição e fair play. Faltou-lhe classe - tal como, salvo raras excepções (como Figo ou Ricardo Carvalho, campeões da seriedade e do profissionalismo), falta classe a muitos jogadores portugueses, mestres no abuso da esperteza saloia. Se Portugal é o "patinho feio" do Mundial, como Scolari lamentou, é-o por culpa própria.

quinta-feira, julho 06, 2006

Racionalizar o Estado, mas maximizando a protecção social

Pacheco Pereira hoje no "Público" (link não disponível):

"Não me interessa discutir a privatização dos rios, posso bem deixá-la para um longínquo futuro, mas já me importa combater pela saída do Estado dos partidos políticos, das centrais sindicais, das confederações patronais, das companhias de teatro subsidiadas, das "bolsas para escritores", do futebol, dos órgãos de comunicação social, ou seja do negócio da propaganda, do subsídio e da protecção. Feito isto, expulsado o Estado de onde ele não deve estar, nem muito nem pouco, podemos passar para onde ele deve estar minimamente. É que sem Estado mínimo, não há justiça social. O Estado máximo que temos é a melhor garantia de que os recursos escassos serão sempre mais para os que não precisam do que para os que precisam. E é isso que me interessa, não é ter uma camisola com o nome de liberalismo ao peito."

Não é preciso concordar com todos os exemplos que Pacheco Pereira (PP) elenca (gostava de saber que teatro e literatura teríamos sem o apoio estatal: múltiplos clones de Filipe La Féria e de Margarida Rebelo Pinto?) para perceber o que ele diz de importante: se os recursos do Estado - finitos, convém lembrar - são distribuídos de forma caótica, clientelar e irracional, então depois é natural que falte dinheiro para aquilo que é essencial.
O problema do argumento de PP é que, para contrapor à ideia de "Estado máximo que temos" (é "máximo" mesmo que PP quer dizer? não devíamos, em bom rigor, guardar o adjectivo para casos, por exemplo, como a Alemanha nazi e da Itália fascista?), logo cai na ideia falaciosa de que "sem Estado mínimo não há justiça social". Não há dúvida que o argumento de que "temos-é-que-concentrar-os-recursos-em-quem-mais-precisa-porque-os-outros-vivem-bem-sem-eles" é ideologicamente sedutor (inclusive à esquerda), mas, na boca e nas mãos do liberalismo, ela tem uma consequência muito concreta: incapacidade para reduzir a pobreza, por um lado, e as desigualdades, por outro. Para confirmar isto não precisamos de ir muito longe - basta regressar a este post de há uns dias, e ver que os países onde a retórica e a prática do "temos-é-que-concentrar-os-recursos-em-quem-mais-precisa-porque-os-outros-vivem-bem-sem-eles", ou seja, os países que adoptaram historicamente o "modelo liberal" de protecção social, são aqueles onde os níveis de pobreza (mas também as desigualdades, se usarmos o índice de Gini para medir a distribuição de rendimentos) são mais elevados. Não há acaso nenhum aqui: para usar uma frase conhecida, uma política dirigida para os pobres é sempre uma pobre política.

Logicamente, isto não significa legitimar a maximização da intervenção do Estado à toa, ao jeito da "estratégia do polvo" que PP critica: que se racionalize a sua intervenção (de F-16 por desencaixotar e estadios de futebol por usar estamos todos fartos). Mas a racionalização do Estado não esta, como é moda dizer, "para além da esquerda e da direita", e é aqui que os sociais-democratas/socialistas (os epítetos não são aqui importantes) e os liberais seguem caminhos marcadamente diferentes (ou pelo menos deviam!). Ao contrário dos segundos, os primeiros pretendem com esta racionalização libertar os recursos que maximizem a capacidade de acção do Estado onde ela é incontornável com vista à redução verdadeira da pobreza, por um lado, e à correcção eficaz das desigualdades ao nível do acesso a "bens primeiros" estruturantes da formação das capacidades e das oportunidades dos indivíduos ao longo da vida, por outro. E nestes campos que se jogam as verdadeiras alavancas e intervenções redistributivas, tanto numa lógica de protecção, seja de investimento, e é por aqui que a reinvenção do projecto progressista deve passar.

terça-feira, julho 04, 2006

E se isto fosse na Europa, o que diriam?

Editorial de António José Teixeira no DN:

"O governo do estado norte-americano de Nova Jérsia "fechou". Todos os serviços não essenciais cujo funcionamento depende da administração estadual estão paralisados. Tudo porque o Senado e a Câmara dos Representantes de Nova Jérsia não se entendem quanto ao orçamento. A Constituição estadual obriga à aprovação do orçamento até 1 de Julho, caso contrário quaisquer pagamentos posteriores são considerados ilegais. Ora, como não há orçamento, o governador Jon Corzine decidiu "encerrar" o Estado. Cerca de 40 mil funcionários públicos ficaram em casa, a construção e reparação de estradas parou, a lotaria não funciona, e o mesmo esteve para acontecer aos casinos, que, apesar de privados, não podem funcionar sem a presença de fiscais públicos. Estão abertos provisoriamente graças a uma providência cautelar. Republicanos e democratas procuram solução para o défice de 3,75 mil milhões de euros. Cortes e mais cortes poderão não evitar uma subida de impostos e é aí que governador e congresso se dividem. E por isso se "fechou" o estado."

Não me divirto minimamente com esta situação, mas rio-me só de pensar o que se diria por cá se um problema semelhante a este acontecesse num Estado europeu. Que insultos nos reservariam os comentadores portugueses se isto sucedesse na "deprimida" e "esclerótica" Europa?

Sobre a "tragédia da redistribuição"


Este quadro apresenta o Indice de Pobreza Humana (IPH-2) que consta do Relatório para o Desenvolvimento de 2004 (produzido no âmbito do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas), e de que já havíamos falado aqui (ver terceira coluna do quadro desse post; no presente quadro, retirado daqui, figuram os quatro critérios em separado; recordo que todos valem 25% para a classificação final).
Se recordarmos os três "mundos do capitalismo de bem-estar", na clássica definição de Gosta Esping-Andersen (de quem já falámos aqui), vemos que eles estão aqui bem desenhados (convém recordar que o IPH-2 e a tipologia de Esping-Andersen não têm uma origem comum: se há sobreposição, isto apenas mostra a relevância analítica e empírica da tipologia do autor dinamarquês). Se descontarmos o Luxemburgo (que é mais uma "cidade-Estado" do que propriamente um país) e o Japão (que não entra na tipologia original), temos entao os países "nórdicos" (Suécia, Noruega, Finlândia e Dinamarca, juntamente com a Holanda, que partilha algumas características do modelo); depois os países do modelo "continental" (Alemanha, França, com a Bélgica um pouco mais abaixo), misturado com os da Europa do Sul (Espanha e Itália), e por fim, com os piores desempenhos, os países do modelo liberal "anglo-saxónico" (Canadá, Austrália, Reino Unido, Irlanda e EUA).

Isto seria uma total, completa e elementar trivialidade se cada vez que abrissemos os blogues de direita a "redistribuição" não fosse sistematicamente apelidada de "trágica", e como sendo culpada pela reprodução ou aumento da pobreza. Ora, não só os países nórdicos são os mais redistributivos do mundo - e falo de investimentos redistributivos altamente progressivos, e não apenas do aparente oxímoro que é a "redistribuição regressiva", que acontece em muitas situações do modelo continental (e que promove o tal "welfare for the rich" que contribui para as dívidas públicas) -, como são altamente competitivos na economia global (e, já agora, têm as mais altas taxas de sindicalização). No mundo da direita, este quadro (e muitos outros do mesmo género) não devia pura e simplesmente existir. A realidade é sempre mais complicada que os dogmatismos a priori. Não é isso que passam a vida a dizer à esquerda?

segunda-feira, julho 03, 2006

Foi há 20 anos

Isto.

O que Scolari recusou

"Eriksson's track record was arguably superior to anyone ever appointed England manager before him. Knowing that, the FA was willing to go extremes to secure him. The £2.5m a year that he may have been earning at the very start in 2001 is about 10 times more than the current salary of Raymond Domenech, coach to the World Cup semi-finalists France."

Há quem afirme que Erikson ganhava efectivamente 4 milhões de libras, ou mesmo mais de 5 milhões, se multiplicarmos por 52 as 100 mil libras por semana que alguns afirmam ser o seu real salário; mas fiquemos pela figura dos 2 milhões e meio de libras/ano, o que dá sensivelmente 3 milhões e 750 mil euros/ano. Se aceitarmos que Scolari não ia ganhar menos que Eriksson (e provavelmente iria receber mais: enquanto campeão do mundo e vice-campeão da Europa, o seu currículo ao nível de selecções é muito superior ao de Eriksson), e se acreditarmos que a sua renovação em curso lhe garante um salário da ordem do 1 milhão e meio de euros/ano (o que dá cerca de 125 mil euros/mês), então Scolari, ao rejeitar o convite da selecção inglesa (como o fez há um par de meses), abdicou de uma enorme quantidade de dinheiro: iria multiplicar o seu salário pelo menos por 250%).
Mas se o seleccionador francês Raymond Domenech ganha efectivamente 10 vezes menos que Eriksson (como sugere o colunista do "The Guardian"), ou seja, à volta de 250 mil libras/ano (=375 mil euros/ano, o que dá uns 'míseros' 31 mil euros/mês, o que aliás não espanta: Domenech é pago basicamente como um alto funcionário do Estado francês, e não como um Président Directeur Générale de uma empresa cotada na bolsa), então isso significa que a Federação Portuguesa de Futebol paga ao seleccionador da equipa nacional 4 vezes mais do que a Federação Francesa.

Sugestão da semana


Les Nouvelles Géographies du Capitalisme (Seuil, 2006), de Olivier Bouba-Olga

Um olhar lúcido e não demagógico sobre a globalização económica, em geral, e a questão das deslocalizações de empresas, em particular, que tanto preocupa europeus e norte-americanos: uma preocupação absolutamente legítima, mas por vezes tende instintivamente a gerar impulsos proteccionistas a nível tarifário que não ajudam a enfrentar o futuro; e que não obrigam, como deviam, o Estado e os parceiros sociais a reinventar a protecção social, compatilizando-a com a maior mobilidade do capital, dos bens/serviços e, em menor grau, dos trabalhadores.


Resumo:

"ST Microelectronics, Thomson, Hewlett Packard, Metaleurop... la litanie des délocalisations semble ne jamais devoir s'interrompre... Et chacun de chercher le coupable idéal : les " avantages acquis " ; l'ouvrier chinois ; l'Etat et sa fiscalité ; les patrons voyous ; les fonds de pension anglo-saxons, etc. Cet ouvrage propose une autre lecture. Il démontre que les délocalisations participent d'un processus plus général de réorganisation des activités économiques à l'échelle mondiale, au sein duquel le " déménagement " d'activités vers les pays en développement pèse finalement peu. Ce processus soumet l'ensemble des acteurs à une triple dictature : dictature des coûts (où l'on apprend que la question du coût du travail n'est pas vraiment essentielle), dictature financière (où l'on constate que le fonctionnement des marchés financiers est loin d'être rationnel) et dictature des compétences (où l'on cerne les limites des politiques des pôles de compétitivité). Les effets de cette triple dictature sont ambivalents : elle est au cœur du processus de création de richesses et d'emplois, mais creuse aussi les inégalités spatiales et sociales, au profit, pour l'essentiel, des détenteurs du capital financier et de ressources spécifiques. Inutile de rechercher les 'méchants' de l'histoire, car le problème est systémique, indissociable des mutations du capitalisme dans une économie mondialisée. Mais cela n'implique en rien l'impuissance du politique. Si la dynamique du capitalisme est contraignante, les façons de répondre à la contrainte sont plurielles. C'est encore et toujours aux politiques de proposer les modèles alternatifs et aux citoyens de manifester leur préférence par leurs votes et leurs actions collectives. Le premier mérite de cet ouvrage est de dresser l'inventaire rigoureux des choix possibles."

Number of online users in last 3 minutes