Sindicatos = Desemprego?
Uma das asserções que vem várias vezes a público é que os sindicatos criam desemprego, em particular desemprego de longa duração (ver aqui). Infelizmente, é raro ver estas asserções confrontadas com o que sabemos das realidades económicas nacionais. Recuperemos os dados avançados por um estudo da Comissão Europeia noticiado pelo DN no dia 1 de Maio passado. Ali lê-se que "que taxa de sindicalização dos trabalhadores portugueses era de 24,3% em 1997, só acima da espanhola (15,7%) e da francesa (9,8%). E muito abaixo da dos países nórdicos, que oscilava entre os 75% os 82%."
Agora vejamos a taxa de desemprego estandardizada, a partir de dados do Sourcebook da OCDE 2006. Os números obtidos são uma média dos valores de desemprego entre 1995 e 2004.
O que nos diz o gráfico? Que os países nórdicos, onde a taxa de sindicalização é elevada, têm desempenhos heterogéneos, mas que estão em regra abaixo da média da OCDE: a Noruega é o quarto país com menos desemprego, com valores da ordem dos 4%, e a Dinamarca um pouco acima dos 5%. So a Suécia esta acima da respectiva média, mas abaixo da média da UE15. Ora, e no que toca aos países que o DN, via o citado estudo, diz que têm taxas de sindicalização mais baixas que Portugal, designadamente Espanha e França? Estes estão entre os países com desemprego mais elevado na década em análise.Como é que, ao contrário do que nos dizem, os países com mais baixos índices de sindicalização têm níveis de desemprego mais elevado? A realidade é muito complexa a este nível. Não vou logicamente argumentar que a relaçao é inversa ao que muitos economistas avançam, embora estes dados até pudessem indiciá-lo: que o desemprego tende a ser inferior nos países com níveis mais elevados de sindicalização. O número de variaveis em jogo é de tal forma vasto e a sua relação complexa - precisaríamos de discutir como funciona o sistema de relações laborais (a forma como o patronato se organiza ou não, se existe concertação laboral com intervenção do Estado ou não, etc.), do grau de autonomia dos sindicatos em relaçao aos partidos, a sua organizaçao interna e as relações inter-sindicais, o nível de qualificação da população, os sectores no qual a economia nacional estrategicamente assenta, etc., no fundo, como funcionam as complementaridades institucionais numa dada realidade nacional - que as coisas não podem ser reduzidas a uma relação unívoca do género "sindicatos fortes = mais desemprego" (aliás, os sindicatos podem ser fortes e terem uma adesão fraca). Se sabemos alguma coisa (que não a partir da lógica interna dos argumentos da teoria económica a-histórica), é que esta relação, apresentada como é na maioria das vezes, é falsa.

5 Comments:
Caro Hugo Mendes,
Para estabelecer relações causa-efeito não basta comparar gráficos convenientes.
Em condições semelhantes, como se comporta um fenómeno em função do parâmetro em estudo?
Escolha qualquer país do seu gráfico e imagine que o poder de coacção legalizada dos respectivos sindicatos era outro.
(porque dos sindicatos sem garras legais não há que temer, antes pelo contrário como referi no AADF)
Mantém que o aumento do poder "iliberal" dos sindicatos não terá correlação com o aumento do desemprego?
É verdade: obrigado pelos comentários :)
Um abraço,
AA
Caro Antonio, é preciso ver caso a caso antes de proclamar supostas leis ou mesmo regularidades empiricas. Estes graficos nao sao apenas "convenientes": o onus de explicaçao do facto de porque é varios paises com taxas de sindicalizaçao elevada têm das mais baixas taxas de desemprego esta do seu lado. A minha resposta é que os sindicatos, dependendo de 'n' variaveis, jogam papeis varios, inclusive de desenhar e implantar esquemas de pleno emprego, como na Suécia do pos-guerra, onde os economistas Gosta Rehn e e Rudolf Meiner (eles proprios pertencentes ao maior sindicato sueco) conceberam um plano que implicava a manutençao de pleno emprego. Outros paises adoptaram de seguida modelos semelhantes que garantiram um virtual pleno emprego durante 3 décadas. Vai argumentar que estes sindicatos causam desemprego?
A verdade é que ha condiçoes particulares para este tipo de coordenaçao entre os sindicatos e o patronato acontecerem; depende muito da cultura politica e das relaçoes laborais vigentes, por exemplo.
Mas os sindicatos nao ajudam a garantir o pleno emprego apenas em fases de expansao, mas tambem em crise; o chamado 'milagre holandes' de criaçao de empregos do inicio da década de 1990 assente em moderaçao salarial e redistribuiçao do risco perante uma recessao forte foi feito com os sindicatos, nao contra. Mais uma vez, a existência dos sindicatos ajudou a coordenar os esforços entre os diferentes actores (repito o que disse no comentario no seu blog: em muitos casos - atençao: nao todos - os patroes beneficiam de sindicatos poderosos capazes de agregar os interesses dos trabalhadores e com um sentido de responsabilidade nacional para nao reivindicar disparates). E' preciso conhecer a complexidade institucional dos diferentes paises antes de fazer afirmaçoes como sao feitas. Se a economia assentasse menos em modelos abstractos e mais no conhecimento das instituiçoes dos paises, nao se diziam tantas coisas sem base empirica.
abraço
Era bom que os modelos espelhassem a realidade e não que se tentasse encaixar a realidade nos modelos: sobra sempre realidade, enfurecendo os defensores dos modelos.
Para evitar que uma mentira, por ser dita muitas vezes, se torne "verdade", é bom ler artigos como este. Muito bom, parabéns!
Filipe Tourais
Nao tenho duvidas acerca da utilidade dos sindicatos. Sobretudo porque sao um contrabalanço aos patroes e lobbies. Eles devem existir e sao beneficos. MAS nos últimos tempos (falo no caso portugues) a sua acçao tem sido insuficiente. Eles apenas usam as velhas armas e estas sao insuficientes. Deviam dialogar mais e assumir outra postura - nao deixar de reivindicar, mudar os métodos!
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