Domingo, Maio 28, 2006

Avaliação e opinião

Lido no "Público On-line" do dia 27.05:

"O Ministério da Educação (ME) quer que os pais passem a participar na avaliação do desempenho dos professores dos filhos, necessária para a progressão na carreira dos docentes. Segundo a proposta de alteração do Estatuto da Carreira Docente (ECD) que o Ministério apresenta hoje à comunicação social e aos sindicatos, cada encarregado de educação individualmente vai fazer uma avaliação do trabalho dos professores que dão aulas aos seus filhos, uma apreciação que será depois tida em conta, juntamente com outros factores, para a subida de escalão por parte dos docentes."

Estou fora deste debate e não conheço os pormenores da proposta para além do que tenho lido nos jornais. Em teoria, considero que faz todo o sentido os pais terem alguma coisa a dizer sobre a forma como se desenrola o processo educativo. Recorrendo às clássicas três categorias usadas por Albert Hirschmann para estudar os processos de funcionamento e de mudança nas organizações - voice, exit, and loyalty -, a escola não deve ser apenas um espaço onde as relações de loyalty devem ser hegemónicas (onde os professores teriam, por definição, "sempre razão"), nem onde a exit seja a primeira opção (onde "quem esteja mal, que se mude", a posição liberal por excelência), mas onde a voice dos diferentes intervenientes e interessados deve poder ser articulada, ouvida, e tomada seriamente em consideração - e os pais pertencem seguramente a este rol de actores.

Agora convém ter algum rigor nas palavras usadas: falar em "avaliação" dos professores pelos pais significa que existe algum instrumento usado por estes para avaliar se o desempenho do professor é 'bom', 'razoável', 'mau', etc. Se não houver esta medida comum, então não estamos no plano da "avaliação", mas da "opinião". Isto, atente-se, não significa que a opinião dos pais não deva ser ouvida; a qualidade do processo educativo é de extrema importância para o futuro dos seus filhos, e o que os pais possam ter a dizer sobre as diversas dimensões do processo educativo deve ser ouvido atentamente. Se há um défice nesta área, então que se corrija. Mas opinar não é a mesma coisa que avaliar. A opinião pode ser absolutamente individual, subjectiva, incoerente, infundada e, em casos limite, manifestamente desastrosa (e se isto é empiricamente a excepção ou não, só a investigação o poderia revelar). Já a avaliação obriga à construção e uso de critérios minimamente objectivos/intersubjectivos que garantam a coerência e validade interna e externa do julgamento feito. E isto, parece-me, não é pêra doce - é importante que não se negligencie isto.

Se a educação é demasiado importante para ser entregue exclusivamente aos professores, também é importante que se tenha cuidado com a relevância atribuída a um certo "achismo" (o reino do "eu acho que...") a que a avaliação do professores pelos pais pode levar. A não ser que se pretenda substituir uma suposta mediocridade por outra mediocridade.

1 Comments:

At 10:37 AM, Junho 01, 2006, Blogger AisseTie said...

O populismo vai dando o mote da governação Sócrates, nesta e em outras matérias, todas no sentido de desmantelamento do sector público.

 

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