sábado, abril 29, 2006

Sugestão da semana

[Aos sábados, o Véu da Ignorância apresenta um livro recentemente publicado]


Globalization and Egalitarian Redistribution
editado por Pranab Bardhan, Samuel Bowles e Micheal Wallerstein,
Princeton University Press, 362 pages (April 30, 2006)

Resumo:

Can the welfare state survive in an economically integrated world? Many have argued that globalization has undermined national policies to raise the living standards and enhance the economic opportunities of the poor. This book, by sixteen of the world's leading authorities in international economics and the welfare state, suggests a surprisingly different set of consequences: Globalization does not preclude social insurance and egalitarian redistribution - but it does change the mix of policies that can accomplish these ends. "Globalization and Egalitarian Redistribution" demonstrates that the free flow of goods, capital, and labor has increased the inequality or volatility of labor earnings in advanced industrial societies - while constraining governments' ability to tax the winners from globalization to compensate workers for their loss. This flow has meanwhile created opportunities for enhancing the welfare of the less well off in poor and middle-income countries. Comprising eleven essays framed by the editors' introduction and conclusion, this book represents the first systematic look at how globalization affects policies aimed at reducing inequalities.

The contributors are Keith Banting, Pranab Bardhan, Carles Boix, Samuel Bowles, Minsik Choi, Richard Johnston, Covadonga Meseguer Yebra, Karl Ove Moene, Layna Mosley, Claus Offe, Ugo Pagano, Adam Przeworski, Kenneth Scheve, Matthew J. Slaughter, Stuart Soroka, and Michael Wallerstein.


Em vésperas do 1° de Maio...

"As causas do PCP

Num artigo do Público de hoje, o dirigente comunista Vítor Dias defende o actual regime de deduções fiscais das despesas de educação e de saúde privadas, mesmo quando os serviços públicos são plenamente satisfatórios. Sabendo-se que quem recorre às clínicas e escolas privadas são em geral os titulares de mais altos rendimentos, sendo eles os principais beneficiários dessa generosa benesse fiscal do Estado, que retira considerável efectividade à progressividade do imposto de rendimento, é caso para perguntar se o PCP está a mudar a sua base de classe. Pelo menos neste ponto a direita tem aqui um convicto, e inesperado, aliado."

Vital Moreira, no Causa Nossa.

sexta-feira, abril 28, 2006

Debate sobre o "eduquês"

Nestes dois últimos dias 'emigrei' para um debate num blog vizinho, o Destreza das Dúvidas. Quem estiver interessado pode seguir lá toda a discussão, que já teve vários rounds.

terça-feira, abril 25, 2006

Neoconservadorismo, versão portuguesa

A propósito de um post recente de Rui Pena Pires n'O Canhoto sobre João Carlos Espada, o "ideólogo de serviço da causa neoconservadora em Portugal", aqui fica uma referência para mostrar que a sua influência não se esgota intra-muros. Nesta colectânea de textos organizada por Irwin Stelzer (Atlantic Books, 2005), João Carlos Espada aparece ao lado de um conjunto de nomes de ilustres teóricos (e/ou executantes) do neoconservadorismo, entre os quais Irving Kristol, Robert Kagan, Condoleezza Rice ou Margaret Thatcher. E, voilà, Tony Blair também integra a lista.

Abril, catástrofes mil

Atente-se no destaque do 'Público' de hoje, dia 25 de Abril: o legado do acidente nuclear de Tchernobil (mais, inevitavelmente, o editorial de José Manuel Fernandes)

Já sabíamos que o director do 'Público' já gostou mais da Revolução de Abril do que gosta hoje, mas, caramba, precisava de ser assim tão explícito? Não havia mesmo outro dia para fazer este 'destaque' - como, por exemplo, amanhã, no dia 26 de Abril, precisamente depois 20 anos do acidente, talvez?...

P.S. - Talvez que um pequeno exercício selvagem de 'desconstrução' nos ajude a perceber: Tchernobil = Catástrofe = URSS = Comunismo = 'Revolução'...

Nota sobre o crescimento do PIB per capita

Um dos passatempos preferidos dos partidários da tese da "Eurosclerose" é o de comparar o ritmo de crescimento das "dinâmicas" e "jovens" economias asiáticas com a "estagnação" da "decadente" Europa. Mas boa parte dos valores que se avançam são completamente ocos. Senão vejamos. O PIB per capita chinês deu um salto espectacular entre 1973 e 2001, passando de 839 dólares para 3583 dólares (valores de 1990), ou seja, um crescimento de 320% em 28 anos. Ao mesmo tempo, o PIB per capita francês "só" cresceu 60%, mas isso correspondeu a um aumento de 13123 dólares em 1973 para 21092 dólares em 2001. Ou seja, o PIB per capita francês cresceu 7969 dólares, enquanto que o chinês cresceu 2744 dólares. Contas feitas, se em 1973 a diferença entre os valores francês e chinês era de 12284 dólares, em 2001 era de 17509 dólares. Nas comparações entre a "decadência europeia" (caso tipo: França) e a "pujança asiática" (caso tipo: China), cuidado com as percentagens...

Golpes baixos

Ontem, em conversa com um aluno de engenharia de uma das grandes écoles francesas, perguntava-lhe como é que o PSF iria responder à rápida ascenção pública/mediática de Ségolène Royal. Ele respondeu-me que duvidava que ela resistisse às pressões internas e aos ataques que seguramente se iriam acumular no interior do partido. Minutos depois, leio no DN que Laurent Fabius, um dos peso-pesados do PSF e proto-candidato à presidência, teve a "frontalidade" de questionar em público: "E quem cuidaria dos filhos?" (Ségolène, de 52 anos, tem quatro). Perante idiotices deste calibre, depois queixem-se dos avanços do 'feminismo radical'.
P.S. - Resposta inocente à pergunta de Fabius: porque não o próprio François Hollande, actual secretário-geral do PSF e companheiro de Ségolène?

segunda-feira, abril 24, 2006

Causa pública

Continua a nobre saga de Vital Moreira, com as suas propostas para reduzir as contas públicas.

domingo, abril 23, 2006

Sobre as vantagens do diploma universitário

Lê-se numa notícia do Público de 21.04 a partir de um relatório produzido pela OCDE sobre Portugal:

"O actual sistema de financiamento público do ensino superior é questionável em termos de equidade. Afinal, o dinheiro despendido pelo Estado beneficia apenas uma pequena parte da população que não só tende a ter mais posses, como virá a retirar grandes benefícios pessoais deste investimento, assegurado em larguíssima medida (90 por cento do total da despesa nacional neste nível de ensino) pela generalidade dos contribuintes, lembra a OCDE".

Este raciocínio oculta um elemento essencial sublinhado por todos os estudos sobre capital humano - inclusive os publicados pela mesma OCDE, como o de Março passado (ver aqui) -, que apontam para a existência de uma relação forte (que se estima causal e não apenas correlacional, mas a discussão não é para aqui chamada) entre níveis educacionais de uma população e a competitividade nacional. Não é difícil compreender que a educação não aumenta apenas o salário dos indivíduos detentores de diplomas (obtidos, segundo o mesmo raciocínio, 'à custa' dos impostos pagos pelas famílias dos não-diplomados), mas também o bem-estar económico dos não-diplomados: os primeiros, munidos do diploma e de capital humano/cognitivo, irão criar empresas, atrair investimento, etc., processos que irão alimentar, directa ou indirectamente, a produção de riqueza pelos e para os segundos (enquanto trabalhadores e consumidores, respectivamente). Faz muito pouco sentido apresentar as vantagens da obtenção de um diploma de estudos superiores como exclusivamente individuais: estamos perante um caso clássico de produção de externalidades positivas que beneficia os seus cidadãos de um país no seu conjunto. De facto, a educação pública aproxima-se bastante da definição de bem público (que é uma construção teórica, sendo por isso difícil encontrar casos puros - o que não retira relevância ao conceito), que tem como propriedades a (e vai em inglês para não estar a inventar palavras) non-rivalness e a non-excludability: a primeira diz-nos que o facto de uma pessoa consumir esse bem não leva a uma maior escassez do mesmo; a segunda afirma que é impossível excluir indivíduos do consumo desse bem.
(Isto não é, atenção, um argumento decisivo contra a proposta do relatório para o aumento do financiamento do sistema pelos alunos, compensada pela introdução de bolsas para os alunos mais desfavorecidos; porém, seria difícil, parece-me, criar este esquema sem introduzir perversões consideraveis, dada a dificuldade em muitos casos em avaliar rigorosamente o nível de rendimentos das famílias (era preciso a tal reforma fiscal); para além do mais, se cada vez mais a formação universitária é vista, para as próximas décadas, como uma prioridade nacional, porque não fazer dela uma correspondente genuína prioridade central do investimento público, tal como na geração anterior o foi a generalização do ensino secundário (no início igualmente monopolizada pela elites)?).

Dia de luto

em fundo azul

sexta-feira, abril 21, 2006

Ségolène

Precisamente quatro anos depois da segunda volta das eleições presidenciais de 2002 - nas quais Le Pen 'roubou' o lugar a Jospin na disputa do cargo com Chirac (que venceu facilmente por 82%-18%), foi publicada uma sondagem que atribui uma vitória à mais provavel candidata do PSF, Ségolène Royal, contra Nicholas Sarkozy (mais forte nome do lado da UMP), tanto à primeira (34% - 30%) como à segunda volta (51% - 49%). Logicamente, estes números valem pouco a um ano do escrutínio, mas podem ser o suficiente para fazer com que o PSF se decida por Ségolène Royal contra os outros possíveis candidatos do partido (Laurent Fabius, Dominique Strauss-Kahn, Jack Lang, talvez mesmo Lionel Jospin).
61 anos depois de às mulheres ter sido concedido o direito de voto (em reconhecimento do seu papel na resistência contra a ocupação alemã durante a II Guerra Mundial), nunca uma mulher esteve tão bem colocada para vir a presidir a República. Pode ser que depois a expressão 'pátria dos Direitos do Homem' seja mais difícil de usar.

Como parecer 'neo-liberal' em França e 'comunista' nos EUA (e ser, simplesmente, um social-democrata clássico)

Num post anterior, no auge da crise do CPE, já tinha aludido ao trabalho do historiador canadiano Timothy B.Smith, que acaba de ver traduzido o seu "France in Crisis. Welfare, Inequality and Globalization Since 1980", (Cambridge University Press, 2004), para francês, com o titulo "La France Injuste 1975-2006: Pourquoi Le Modèle Sociale Français Ne Fonctionne Pas", (Autrement, 2006)*. Se alguém quiser compreender realmente o que se passa em França, não apenas os protestos recentes contra o CPE, mas os problemas causados e vividos depois do fim do Trente Glorieuses (1946-1975), este é o livro que devem ler (o trabalho não é muito técnico, e o autor faz um uso inteligente da crítica aberta e da polémica, o que torna o livro ainda mais aliciante). Smith mostra convincentemente que a França vive hoje dividida entre o corporatismo de certos grupos 'intocáveis' que se defendem a todo o custo sob a capa da 'solidariedade' e do 'interesse univeral', e o neo-liberalismo imposto, como solução de emergência (e não por convicção ideológica das suas elites) e pela porta dos fundos à maioria dos jovens e imigrantes (vide CPE). Ou seja, o neo-liberalismo, efectiva e sistematicamente imposto a alguns, não é, em si, a causa fundamental do problema em França, ao contrário do que a 'esquerda plural', com Lionel Jospin e companhia, quis fazer crer desde 1997 para esconder a ausência de coragem política para enfrentar os problemas de frente (entre nós, André Freire também passou essa imagem num artigo publicado no Público de 17.04 (link indisponível, mas há um excerto longo acessível aqui)): a França não tem nem terá nas proximas décadas - a não ser à custa de uma revolução social, digo - um modelo económico neo-liberal, porque a arquitectura das suas instituições políticas e económicas simplesmente não é compatível com a "utopia do mercado livre". Mas a isto eu volto noutra ocasião.
Timothy B.Smith foi entrevistado esta semana pelo jornal '20 minutes'. Um excerto:

"Tout comme aux Etats-Unis les plus aisés se réfugient dans une rhétorique de l'égalité pour défendre leurs privilèges... Je demande une nouvelle loi Le Chapelier [qui a aboli les corporations en 1791]. Bon, je vais encore passer pour un néolibéral !
Ce que vous n'êtes pas ?
Aux Etats-Unis, on me prend pour un communiste... Moi, je crois à la dépense publique redistributive. Les pays scandinaves ont compris que pour être un bon socialiste, il fallait faire la paix avec le capitalisme. En France, on n'imagine pas de solutions sociales ailleurs que dans le secteur public. C'est absurde d'opposer l'Etat providence à l'économie dynamique."

* No post anterior referi estes dois livros como sendo diferentes, mas estava enganado. Quando pude consultar o livro em francês, reparei que era a tradução da obra escrita em inglês.

quinta-feira, abril 20, 2006

Estranho...

...que ninguém tenha acusado os generais norte-americanos fora do activo que pretendem a demissão de Donald Rumsfeld de grosseiro "anti-americanismo". Não há nenhuma alínea no 'Patriot Act' que os ponha na ordem?

terça-feira, abril 18, 2006

Evidências

Isto é um terrível e inaceitável passo atrás:
Um bombista suicida fez-se explodir ontem em Telavive, matando nove pessoas e ferindo dezenas de outras.

Que necessariamente dá nisto:
Israel lança raide aéreo sobre Gaza depois de atentado de Telavive.

Logicamente, o caminho só pode passar por aqui:
O chefe da diplomacia palestina e um dos dirigentes do Hamas, Mahmud Zahar, reconheceu implicitamente e pela primeira vez o direito à existência de Israel numa carta dirigida esta terça-feira ao secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Até hoje o Movimento de Resistência islâmico, chegado ao poder depois das eleições legislativas de Janeiro, sempre recusara reconhecer o Estado de Israel.

P.S. - O que se dispensa são os atestados de superioridade moral.

Importa-se de repetir?

"Um país como o nosso, com um milhão e meio de desempregados, deixa de ser um país livre".

Palavras de François Mitterrand à televisão, em fins de 1980, enquanto candidato à presidência da República. Quando Mitterrand abandonou o cargo, 15 anos depois, havia 3 milhões e meio de desempregados.

Francofilia, versão americana

Na edição de Primavera da Dissent, uma das melhores revistas da esquerda americana, foi publicado um artigo intitulado "Job Redistribution à la Française", assinado por Luther Carpenter. O título podia ser a gozar, mas não é. O autor termina o texto com palavras que seguramente crê serem elogiosas para com o Estado social francês:

"Job redistribution is essential to the functioning of the French welfare state at this time. The “reformers” have nibbled at the most dramatic form, the thirty-five-hour week, but employers haven’t done away with it. Job redistribution doesn’t cure mass unemployment. It manages it. It’s part of the safety net and part of the insurance against social unrest. It’s not just a second best; it’s part of the middle-class comfort that the French want to distribute to all".

Leiam o texto integral se tiverem paciência. Não tenho tempo agora (mas faço-o depois) para procurar mostrar não apenas por que motivo esta visão está perigosamente errada - para parafrasear Arrow, os "empregos criados pela lei das 35 horas estão em todo lado, menos nas estatísticas" -, mas também por que ela é profundamente comodista: o desemprego em massa não pode ser simplesmente "gerido", tem que ser "resolvido". A "geri-lo" andam as elites francesas há mais de um quarto de século. In the meanwhile, à volta de 3 milhões estão sem emprego (e uma percentagem elevada vive nessa situação há mais de um ano). Se há alguma coisa que define esse tal middle-classe confort, é precisamente o facto de não ser (re)distribuido por todos. Isto, seja o que for, não é solidarité - como devia ser. J.K.Galbraith, como já referi aqui, tinha uma bela expressão para definir esta atitude: chamava-lhe "cultura do contentamento".

sexta-feira, abril 14, 2006

Da 'decadência da Europa', de Steiner ao A380

Sou daqueles que já não tem muita paciência para os ensaios do que, de forma selvagem, se pode chamar de "psicanálise colectiva", essa mescla de filosofia da história com psicologia de massas. Este género, felizmente em declínio (mas sempre capaz de produzir best-sellers: veja-se, entre nós, o "Medo de Existir", de José Gil), elege logicamente temas magnânimes, de significado onto-civilizacional. O tema da 'decadência da Europa' está, hoje, certamente no top 5 das escolhas. No Público desta quinta-feira, Esther Mucznik inspira-se em algumas reflexões desenvolvidas pelo filósofo, ensaísta e romancista George Steiner no seu livro 'A Ideia de Europa'.

Uma curta amostra: "A verdade é que Europa, hoje, está cansada da sua história, não quer saber da sua cultura e nem sabe onde pára a sua geografia. Quer o esquecimento e a tranquilidade e sobretudo que não a tirem da doce redoma de vidro, de preferência opaco, em que se habituou a viver depois das convulsões da primeira metade do século XX. De certa maneira, os europeus reconciliaram-se com a sua história, não têm pretensões imperiais, são partidários da coexistência pacífica de culturas - ao conceito de "choque de culturas" opõem, aliás, o de "choque de ignorâncias" - e celebram a diferença, mas sem verdadeiramente se interessarem por ela. A atitude de distanciação irónica e de escárnio cínico, de medo do ridículo, sobrepôs-se ao pensamento crítico, mas, contrariamente a este último, é estéril e destrutiva. Imbuídos de uma superficialidade satisfeita, os europeus perderam a noção da gravidade da existência."

É caso para perguntar se a autora não perdeu a noção da gravidade da argumentação: é esta vacuidade analítica que é tão irritante no género da "psicanálise colectiva". O raciocínio é aparentemente tão profundo e iluminado (e iluminante) que dispensa a apresentação de argumentos mais 'terrenos' e 'prosaicos' - aqueles que invocam tendências ou processos políticos, sociais, económicos, etc., que podemos organizar conceptualmente, identificar empiricamente, e discutir com base em conjecturas refutáveis, com recurso de preferência à estatística, para melhor materializar o efeito de prova. Percebemos facilmente que não é a "Europa" que está em decadência, mas esta "Europa aristocrata", vitima de nostalgia do absoluto. Se tivéssemos seguido os conselhos dos heróis de Steiner, a Europa não tinha entrado sequer na Revolução Industrial.

P.S. - Para a autora, obviamente, as "elites tendem a abdicar da sua responsabilidade". Ora, as elites europeias (e, já agora, as americanas) darão o seu tempo por melhor empregue se, em vez de tentarem digerir George Steiner, lerem dois livros que ajudam desconstruir a ideia da 'decadência europeia': The World We're In, do britânico Will Hutton (Abacus, 2003); e The European Dream: How Europe's Vision of the Future Is Quietly Eclipsing the American Dream, de norte-americano Jeremy Rifkin (Polity Press, 2004). Ao contrário de vacuidades sobre a putativa "tendência friorenta [da Europa] a fechar-se sobre si própria", podemos ficar a saber, por exemplo, porque é que, ao contrario do que seria de esperar dada a famosa 'decadência europeia', foi a Airbus e não a Boeing (que era o fabricante de aviões mais poderoso do mundo antes da Airbus existir, e que, sob a pressão financeira para criar shareholder value que rendeu milhões aos seus accionistas na última década e meia mas que destruiu a sua capacidade de investimento a longo-prazo, corre o risco de no futuro se transformar numa empresa de fabrico de...peças para aviões) a produzir o novissimo double-decker, o Airbus A380, capaz de transportar 555 passageiros. A Airbus controla actualmente cerca de 75% do mercado mundial de aviões de passageiros. Tudo, claro, fruto da "tendência da Europa para se fechar ao mundo".

quarta-feira, abril 12, 2006

Números para mais tarde recordar

A ler o post de António Dornelas, 667,2 SMN? Simplesmente pornográfico!, n'O Canhoto.

A ler...

...Em complemento ao post anterior, a entrevista ao Libération do passado dia 03.04 de Dominique Méda, socióloga, e Alain Lefebvre, conselheiro para as questões sociais nos países nórdicos, que publicaram no mês passado Faut-il brûler le modèle social français ? (Paris: Seuil, 2006).

A minha passagem preferida é quando os entrevistados afirmam que os jovens dinarmarqueses "ne vivent donc plus le chômage comme une fatalité, ils se sentent en sécurité : au Danemark, dont on vante la flexibilité, ce sont souvent les salariés qui quittent leur emploi pour améliorer leur salaire, pas les patrons qui licencient...".

terça-feira, abril 11, 2006

Uma vitória de Pirro?

O governo francês retirou o CPE e ficou de pensar numa alternativa, negociada com os parceiros sociais. A esquerda ganhou o braço-de-ferro, mas as coisas não podem ficar na mesma. E, embora não esteja no governo nem na presidência, é também sua a responsabilidade de reflectir - sobretudo porque o objectivo é voltar eleger um presidente em 2007. Este foi o momento da crítica - mais complicado será o momento da construção. A esquerda francesa (partidos e os sindicatos) não se devem esquecer que hoje, na economia conteporânea, o principal é proteger as pessoas, não os empregos (estes não se podem proteger indefinidamente - a sanção pelo mercado existe sempre -, e fazê-lo de forma sistemática pode ser prejudicial, a nível micro, para as empresas e para os trabalhadores, e, a nível macro, para a economia no seu conjunto). O mercado (o de trabalho, mas o mesmo vale para os outros) não se pode controlar, mas em vez de se deixar 'funcionar naturalmente', como pedem os liberais (que produz não menos exclusões, a médio prazo, do que a excessiva regulação), pode ser parcialmente construido ou desenhado. No caso do mercado de trabalho, essa construção passará já não tanto pela estipulação de minimos demasiados altos cujo peso recaia sobre os empregadores e jogam sistematicamente contra os jovens e outros trabalhadores, sobretudo os não qualificados (porque depois os empregadores acabam por não empregar ninguém) - e alguns desses mínimos, que são ideologicamente louváveis, são reminiscências de padrões do passado, por exemplo: o facto de, na maioria das vezes, só o homem ter um emprego (e a mulher ficar em casa) obrigava o male breadwinner a ter um rendimento alto para toda a família - mas mais pela capacidade de criar estruturas robustas e eficazes do ponto de vista institucional e financeiro que não deixem as pessoas, em caso de perda de emprego, sozinhas e entregues aos 'humores' do mercado (e às assimetrias inevitáveis entre capital e trabalho), e que sejam capaz de as acompanhar ao longo do seu percurso dentro ou fora do mercado de trabalho, garantindo simultaneamente a sua protecção material e psicológica, bem como a sua aprendizagem e formação contínua.
A esquerda francesa não pode esquecer que dos um princípios mais importantes do Estado social é a redistribuição ou a colectivização do risco: não a sua 'eliminação' (que gera malthusianismos, tanto de crescimento, tanto de protecção, e que é hoje politica e socialmente suicidário), nem a mera 'adaptação' (que gera darwinismos e conflitualidade social), mas a sua partilha por todos, de forma a evitar que os indivíduos com menos recursos fiquem de fora da sociedade e das instituições de produção e de protecção.

Significa para isso os que estao muito seguros terão que ver alguma da sua segurança relativamente reduzida para absorver o risco dos que estão na cauda da sociedade? Em parte, sim - é um processo elementar de redistribuição. Redistribuição não é apenas 'taxar os ricos'; significa agir sobre certas categorias que vivem em situações de elevada protecção concedida pelo Estado e fazê-las ver que a manutenção da sua alta segurança gera exclusões nos mais desfavorecidos e nos mais jovens (o difícil é fazer isto sem denegrir desnecessariamente o seu trabalho e a sua competência). A alta segurança de uns gera, indirecta mas invitavelmente, alta precaridade noutros. No passado, os sindicatos viram-se num paradoxo semelhante: as condições gozadas pela labour aristocracy (e conseguidas depois de muitas lutas) eram mantidas à custa de trabalhadores desqualificados e desprotegidos (muitas vezes imigrantes). Que os sindicatos foram capazes, contra os seus próprios interesses instalados, unir os trabalhadores e trazer progressivamente o que estavam 'fora' para 'dentro', foi uma das histórias mais apaixonantes do sindicalismo do século XX. Hoje, no Estado, muitos na classe alta e média-alta ocupam o lugar análogo ao ocupado pela labour aristocracy. Funcionários (alguns 'altos', outros nem por isso) dedicados mas protegidos da incertezas do mercado (cujo funcionamento e constrangimentos parecem desconhecer) que deixa muitos na precaridade constante, parecem continuar a padecer do sindroma da sua juventude (afinal, falamos da geração dos soixante-huitarde) - o da 'economofobia' generalizada. Hoje, este sentimento tem a sua actualização na fobia da mondialisation, que deixa muitos dos mais seguros em estado de insegurança endémica (e este é o paradoxo da segurança: quanto mais objectivamente seguros, mais sensíveis somos, subjectivamente, à potencial insegurança, mesmo que objectivamente insignificante), e que é transmitido aos seus filhos - muitos, esse sim, objectivamente precários -, que, perante o clima da ansiedade, almejam ser funcionários do Estado (como 75% dos jovens declararam). As razões de adultos e jovens podem ser compreensiveis, legitimas, 'boas', mas isso não significa que esses desejos sejam exequiveis ou desejaveis do ponto de vista macro. A soma das racionalidades individuais pode gerar uma enorme irracionalidade colectiva.
Se a esquerda não souber encontrar uma projecto sustentável a médio prazo, muitos verão na direita menos estatista a unica alternativa 'progressista': uma alternativa assente no discurso fácil do 'elogio do risco' e da divisao simplista do mundo entre 'riscófobos' e 'riscófilos'; como se a evocação da 'responsabilidade individual' resolvesse alguma coisa - em particular o problema do risk-aversion. A direita tende a esquecer, porém, que: ninguém (ou apenas uma minoria) salta sem rede (e normalmente quem tem esse discurso tem não so uma rede, mas um colchão e uma almofada para amortizar a queda); que esta(s) rede(s) (ou estruturas, ou instituições) ou são em boa parte tecida(s) pelo Estado ou entao tende(m) a ser altamente inigualitárias (por exemplo, a formação profissional feita pelas empresas tende a apostar nos profissionais em que lhes interessa investir - os pouco qualificados ficam regularmente de fora); e que estas redes, hoje, devem ter a função de assegurar uma protecção social generosa, mas também de aprendizagem, de formação, de produção e de inovação. As redes de protecção têm que funcionar, ao mesmo tempo e sem contradição, como trampolins. Oferecer trampolins sem rede de protecção não convence ninguém; oferecer redes de protecção - e as actuais estão cheias de buracos e remendos de solidez duvidosa - sem horizonte de saída para quem nelas cai acaba, involuntariamente, por (re)produzir a exclusão que se procura combater. Inteligência e capacidade de negociação pede-se à esquerda (que venha a ocupar o poder no futuro) para reorientar os gastos do Estado e, se possível, caminhar no sentido da universalização e de uma maior eficácia no funcionamento do sistema de protecção social, de formação e nos serviços públicos (e nem sequer é uma questão de gastar mais nestas áreas, mas melhor), deixando ao sector privado áreas onde o Estado não precisa de gastar recursos mas, tão só, regular com eficácia.
A batalha do CPE foi, para todos os efeitos, 'ganha', mas a guerra ainda vai a meio.

segunda-feira, abril 10, 2006

Sobre a(s) esquerda(s) e o 'Estado social'

O Secretário de Estado adjunto e da Justiça, Conde Rodrigues, publicou um livro intitulado A Política sem Dogma -Ensaios sobre o Liberalismo de Esquerda e deu uma entrevista ao DN de domingo (09.04) (na qual me baseio para fazer este comentário). Conde Rodrigues não é o primeiro nem será o último a reproduzir uma série de preconceitos e imprecisões cruciais relativamente à história política ao 'estado social'. Mas vindo de alguém da 'esquerda', custa bastante ler uma série de coisas que, de tantas vezes escritas/ditas, passam a fazer parte do senso comum. Erradas do ponto de vista histórico e ruinosas do ponto de vista político são as ideias de que existe "um modelo" de Estado social, e que esse Estado social é de, ou compromete, natural ou implicitamente, a "esquerda".

Há várias tipologias de modelos de protecção social, mas a mais conhecida será a proposta em 1990 por Gosta Esping-Andersen, que distingue: o modelo social-democrata; o modelo continental corporativista; e o modelo liberal. O esquema tem vindo a ser actualizado, e o tanto o proprio autor, como outros, acrescentaram mais um (ou dois) modelo(s) ao esquema inicial, sem porém o descaracterizar. Isto não é importante para agora. O importante é perceber que o modelo liberal (EUA, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia) é caracterizado pela cobertura das necessidades mínimas da população que prove necessitar assistência publica; o modelo social-democrata (países escandinavos), fortemente redistributivo e igualitarista, baseado na cidadania e nas políticas de mercado laboral activo; e o modelo continental corporativista (França, Alemanha, Austria, Bélgica, Itália, Espanha - e, com alguns limites e singularidades, Portugal*), generoso nas transferências sociais, mas assente nas cotizações profissionais (em vez de cidadania universalista) e no modelo male-breadwinner.

A segunda ideia chave é que o modelo social-democrata foi construído pelos partidos de esquerda e centro-esquerda, enquanto que o modelo continental corporativista foi montado pelo partidos de centro-direita e de direita, de matriz democrata-cristã. Assim, os países que são hoje acusados de ser responsáveis pela "decadência europeia" em virtude do seu Estado pesado, e em particular pelo peso e influências nefastas do seu estado social (a França e a Alemanha), são países cuja protecção social foi, em larga medida, construída - nos anos 50 e 60 - por governos de direita ou centro-direita. Vale a pena citar longamente Esping-Andersen (p.66-67):

"Imperial Germany's social insurance reforms became the model for policy emulation in most European countries. As with Bismarck, social policy was motivated by concerns far removed from any egalitarianism. Chiefly, it was the creation of conservative elites who abhorred laissez-faire almost as much as the socialist menace, and who sought to rescue the old order with moral discipline, social pacification and nation-building. Bismarck's aim was not a welfare state but a welfare monarchy. In comparison with the universalistic egalitarian ideals that later came to define the British Beveridge plan or Scandinavian social democracy's 'people home' ideal, the early architects of social policy in the Continent were authoritarian, étatist, and corporativistic. Much of this conservative legacy has been carried over in the contemporary welfare state institutions. In most other countries the modern welfare state was built by social democrats and left liberals; welfare state consolidation in postwar Europe was dominated by rightist or centre-rightist coalitions - Christian democracy in particular. Even where Christian democratic parties were marginal, such as France and Spain, Catholic social doctrines still exert a visible influence on social policy. The partisan roots of the European welfare states are, for two important reasons, worth stressing. For one, the Christian democratic 'subsidiarity principle' has institutionalized familialism in the sense of supporting the male-breadwinner/famale-career model with transfers (...) The conservative-Catholic imprint affects also the politics of crisis and retrenchment today. The kind of ideologically fuelled partisan battles that are fought in the Anglo-Saxon nations, and even in Scandinavia, are conspicuously absent. The neo-liberal right is, on the Continent, a truly marginal player. These are probably the most consensual of all modern welfare states and this...helps explain why the welfare state edifice remains so immune to change, notwithstanding the urgency of major and quite radical reforms".

Em França, embora a esquerda tenha tido participação em vários dos inúmeros desgovernados governos da 4°República que teve início após o fim da Segunda Guerra (que teve uma vida curta, de 1945 a 1958), nunca teve oportunidade para governar sozinha; e entre 1956 e 1981, a esquerda esteve afastada do poder. Na Alemanha, o SPD só chegou ao Governo em 1969 com Helmut Schmidt. Na foto (retirada daqui) em baixo podemos ver a média dos valores (calculados a partir dos resultados das eleições legislativas em cada década) de (des)vantagem dos partidos sociais-democratas em vários países europeus entre a década de 1920 e a de 1960. Cruciais para a discussão são os valores relativos às décadas de 1950 e 1960: a França e a Alemanha são os países onde os partidos de esquerda social-democrata/socialista obtiveram piores registos. A Austria e a Bélgica, outros países incluídos no bloco do estado social continental, também não obtiveram resultados famosos. Uma discussão mais completa e actualizada desta questão pode ser encontrada aqui.

Conclusão: no periodo de desenho institucional primeiro, e maturação, depois, a esquerda, nestes dois países, teve uma capacidade muitíssimo fraca para influenciar a construção do edifício da protecção social.
Resumindo o argumento de forma rápida:
(1) O "estado social" não existe. Existem vários modelos (3 ou 4 ou 5, depende das tipologias) que são eles proprios tipos-ideais - a realidade é, naturalmente, mais complexa e as lógicas de hibridação variadas.
(2) Os estados sociais continentais, de desenho corporativista, aqueles que são menos igualitaristas, que criam sistematicamente logicas duais e que mais difíceis são de reformar não são nenhum modelo para a esquerda, não apenas porque a esquerda não deixou historicamente a sua marca na sua construção e maturação mas porque, ideologicamente, as suas fundações têm consequências inevitavelmente - e não acidentalmente - exclusivistas e inigualitárias. Os estados sociais continentais constróem mais um "conjunto de hierarquizado de estratos" do que uma "sociedade" (e, já agora, como lembra Esping-Andersen (p.67): "the long-term financial solidity of social insurance is inversely related to the degree of status differentiation"). A esquerda não tem que se penitenciar por arquitecturas institucionais que não construiu e que, se a comparação histórica serve para alguma coisa (e serve - é preciso é conhecê-la), nos diz que teria construído de forma diferente. Não que agora os estados sociais corporativos passem a ser de um momento para outro 'maus'; simplesmente, se tivessem sido construídos pela esquerda, seriam 'melhores' - não só mais justos, como economicamente mais pujantes e, importante nos tempos que correm, mais fáceis de reformar sem abdicar dos seus princípios essenciais e sem entrar em lógicas capitulacionistas - precisamente aquelas que a esquerda liberal tende a seguir porque os exemplos históricos que tem como referência são, a maioria das vezes, os exemplos 'errados'. Com essa críticas, a esquerda social-democrata pode bem: se há problemas com esses modelos de protecção social - e há seguramente -, foi não terem aprofundado o suficiente a lógica da cidadania, redistributiva e universalista própria da social-democracia. O problema não está no excesso, mas no défice.

Estes erros de análise têm consequências para as políticas do presente e do futuro próximo. Verificam-se aqui dois erros simétricos:
- ou se associa automaticamente 'estado social' e esquerda - esquecendo que há estados sociais que não foram construídos pela esquerda -, com a consequência de que a crise do primeiro significa a crise da segunda.
- ou se acha que o estado social é uma espécie de patologia propria da 'excepção europeia', independentemente de quem, politicamente, o construiu - o que leva a concluir que o recuo do Estado será ou terá que ser, também ele, natural e a-político, 'para além da esquerda e da direita'.

Que a direita faça caricaturas do 'estado social', percebe-se - até faz parte do jogo. Agora que a esquerda, 'liberal' ou outra qualquer, cometa estes erros, custa a perceber e a aceitar. Os diagnósticos históricos errados legitimam orientações políticas que nada têm de necessárias. Na Europa, não houve estado social construído 'para além da esquerda e da direita' - e as mudanças a efectuar só seguirão esse caminho se o revisionismo vencer. No passado o debate 'reforma' ou 'revolução' representou uma bifurcação essencial da esquerda. Hoje o debate parece ser entre o 'reformismo'** e o 'revisionismo'. No Véu da Ignorância sabemos de que lado estamos.

* Sobre o caso português, ler por exemplo: Pedro Adão e Silva (2000), "O Estado Providência Português num contexto europeu: elementos para uma reflexão", in Revista Sociedade e Trabalho, nº 8/9, pp.49-62

** Ver uma boa discussão
aqui.

sábado, abril 08, 2006

Da obrigação e da boa educação

O editorial de Helena Garrido hoje no DN critica o anteprojecto de diploma apresentado pelo ministro da Saúde, que prevê a proibição de fumar nas áreas fechadas dos locais de trabalho, dos estabelecimentos de restauração e bebidas, incluindo os que possuem salas ou espaços dedicados a dança, das unidades hoteleiras, e nos centros, galerias e grandes superfícies comerciais. Pondo entre parênteses os pormenores da lei proposta, é necessário desfazer uma série de raciocínios pré-formatados sobre esta questão:

1. Falar aqui de 'fundamentalismo anti-tabagista' é absolutamente abusivo. Primeiro, porque há bons argumentos a favor da proibição (ou pelos menos de alguma regulamentação, como aliás a cronista reconhece no último parágrafo) - e os fundamentalismos não são conhecidos pela sua vontade ou capacidade de apresentar (bons) argumentos. Segundo, porque faz desaparecer as fronteiras entre uma solução de bom senso como esta (e o requisito do bom senso, que me parece preenchido neste caso, não obriga a uma existência de uninimidade de opiniões) e possíveis imposições verdadeiramente fundamentalistas (por exemplo, a proibição de fumar tout court). Por motivos óbvios, esta não é uma discussão sobre liberdades individuais, como se pretende fazer passar. Se o acto de A afecta objectivamente B de forma negativa, então não estamos no domínio exclusivamente individual, dado que há produção de externalidades negativas.
2. A questão da educação: "É uma questão de educação não fumar em recintos fechados sem ventilação. É uma problema de falta de educação deixar uma criança fumar, como beber álcool. Era o indivíduo que deveria ter a responsabilidade cívica de conduzir um automóvel sem beber. Cada um deve cuidar de si e, por essa via, dos outros." Ninguém duvida que se a educação fosse o bem mais distribuído do mundo, estas situações seriam reduzidas ou evitadas. Infelizmente, a discussão aqui não versa sobre a bondade e a necessidade da educação, mas sim sobre o que fazer quando ela não existe. Mandamos todos os "mal-educados" para cursos de etiqueta intensivos? Gastamos uns milhões em campanhas de promoção de educação cívica? Um indivíduo devia ter, efectivamente, "responsabilidade cívica de conduzir um automóvel sem beber" - mas a partir deste comentário elementar ninguém se lembra de argumentar que devíamos descriminalizar a conduta em causa.
3. Desenganem-se, porém, os que pensam que este putativo esforço pedagógico devia estar sob a responsabilidade do Estado. O Estado, claro, não faz parte da solução, mas do problema: "A violação dos direitos dos não fumadores é já um reflexo da deseducação gerada pela intervenção do Estado na vida privada dos cidadãos." Esta afirmação é impressionante. Não apenas é totalmente infundada do ponto de vista empírico - são os fumadores "naturalmente" preocupados com o impacto do fumo em terceiros? mas em que planeta? - como introduz estrategicamente uma assimetria no raciocínio: quando os indivíduos são educados, é porque têm, "naturalmente", espírito cívico; quando não o são, a culpa não é do indíviduo mas já, logicamente, do Estado. "Há quanto tempo se fuma e há quão pouco tempo se ouve quem não fuma queixar-se?", pergunta. A resposta, claro, é que o Estado só serve, como todos sabemos, para corromper o espírito cívico que sempre existiu. Que hoje seja precisamente a crescente consciência cívica de muitos que os tenha progressivamente alertado para a dimensão pública do problema do tabagismo - ou seja, que o apelo à intervenção reguladora do Estado seja precisamente o resultado de maior, e não de menor, consciência cívica - não é sequer uma hipótese para Helena Garrido. Tal como parece ser difícil entender que as propostas legislativas não emanam de uma entidade metafísica chamada "Estado", que, das suas obscuras entranhas, decide unilateral e arbitrariamente, mas dos interesses e preocupações mais ou menos legítimas de pessoas, associações, lobbies, etc. que exercem pressão sobre o poder político para mudar as leis. (e estamos todos à espera de outra comparação de José Manuel Fernandes entre esta 'lamentável' forma de 'engenharia social' e as práticas de Pol Pot e companhia!)

Isto dos direitos (neste caso, dos não-fumadores) é um aborrecimento: obriga sempre à intervenção do Estado. Deviam mas é torná-los condicionais, dependentes da boa educação dos outros. No dia em que isso acontecer, claro, não haverá obrigações a respeitar (inevitável complemento da existência de direitos): haverá favores a prestar.

quinta-feira, abril 06, 2006

Os aristocratas e a tecnologia

Vasco Pulido Valente (VPV) lembrou-se, sexta-feira passada no Público (31/03), de criticar a aposta deste governo na ciência e tecnologia. Para quem passa a vida a criticar a "decadência" do pais (e da Europa face aos EUA), já nem sei o que dizer: apetece perguntar se a "decadência" se supera com a produção de têxteis e de cortiça. O mais grave e sério, claro, é que VPV fala por muitos quando deixa escapar estes tiques de aristocrata para quem "isso" da investigação e sobretudo da tecnologia são artes menores, braçais, em nada comparadas com o superior exercício do "verbo". Isto fez-me lembrar uma estória contada por Jean-Pierre Chevènement (ministro da Investigação e da Tecnologia do primeiro governo socialista após a eleição de Miterrand para a presidência, em 1981) nas suas memórias: criticando a atitude dos anteriores presidentes e governos franceses relativamente à ciência, lembrava que Pompidou (que substitui de Gaulle na presidência em 1969) costumava dizer que "há três formas de perder dinheiro: o jogo, as mulheres, e a investigação. A mais rápida, é ao jogo; a mais agradável, é com as mulheres; e a mais certa, é com a investigação" (p.75).

quarta-feira, abril 05, 2006

"Exigentes", nous?

1. Mais interessante do que discutir in abstracto a "desmesurada" exigência dos trabalhadores franceses é compará-la com a exigência simétrica dos proprietários de acções de empresas cotadas em bolsa, cujo investimento procura lucros rápidos e altíssimos. A exigência dos investidores bolsistas (medida pela chamada ROE - Rate of Equity) situa-se a niveis elevadíssimos e insustentáveis a médio prazo: 15% ao ano - um valor de referência que ninguém sabe muito bem como surgiu, mas que se impôs de forma totémica como o horizonte obrigatório de qualquer estratégia de investimento empresarial, isto em tempos de produtividade mediana e em que economia cresce a nível fraco. Uma das consequências da imposição desta norma é a estagnação dos salários (e, consequentemente, do poder de compra dos assalariados) - uma estagnação estratégica que impede os primeiros de "morderem" os lucros obtidos pela actividades financeiras: "Um dos métodos utilizados pelos dirigentes das empresas para aumentar o rendimento dos fundos próprios é...o de não distribuir aos assalariados os ganhos de produtividade" (Patrick Artus et Marie Viard, Le Capitalisme en Train de se Autodétruire, Seuil, 2005, p.76; este livro abre com a descrição do caso da diferença entre o aumento dos salários dos trabalhadores e o rendimento bolsista dos accionistas da empresa Carrefour em 2004: 1,79% para os primeiros; 27% para os segundos!). Os quadros seguintes, tirados daqui, mostram algumas evoluções interessantes. O "Tableau 1" mostra a repartição dos rendimentos obtidos pelas empresas francesas entre 1982 e 2002. Realce para a baixa da parte salarial e para a duplicação do lucro não investido (clickar no gráfico para aumentar a foto).











No "Graphique 1" pode ver-se que este processo de baixa da parte salarial é um processo europeu (nos EUA a situação não é diferente):












2. Mas o efeito não se sente apenas na estagnação dos salários, mas na própria criação de emprego. O "Graphique 4" mostra que, a nivel europeu, a taxa de investimento tem descido ao longo da ultimas décadas; e que a evoluçao da taxa de desemprego acompanha de muito perto a da parte do lucro não investido.












Deixo uma citação de Jean Peyrelevade (Le Capitalisme Total, Seuil, 2005, p.69), que faz uma comparação interessante e explica o efeito desta altíssima e irrealista "norma de rentabilidade": "A 15% por cento exigido pelos accionistas, os grandes grupos não têm mais a possibilidade de proceder a todos investimentos desejáveis: uma exigência excessiva fabrica o malthusianismo. Ricardo explicava que se começa sempre por explorar as terras mais férteis, os melhores arrosais, situados na planície ou na margem do rio. Mas as suas colheitas não são quase nunca suficientes para alimentar a população nem para empregar toda a mão-de-obra. Assim, procuram-se terras menos favoráveis, nas colinas, a uma maior distância da zona de irrigação e onde, por isso, a rentabilidade é mais fraca. Como o preço do trigo no mercado é único, é então paga uma renda aos proprietários das terras mais produtivas. A última terra explorada, a "terra marginal", é aquela cujo rendimento permite o equilíbrio entre a oferta e a procura de trabalho. Impor a todos os agricultores uma norma de rentabilidade demasiado elevada, não cultivar senão as terras mais férteis, é criar a longo prazo uma situação de subemprego. 'Os lucros de hoje são os investimentos que criarão os empregos de amanhã, dizia o antigo chanceler social-democrata alemão Helmut Schmidt. No que se torna o capitalismo, qual é a justificação social do lucro se esta regra não é respeitada?" (sublinhado meu)

A mesma inquietação nas palavras de Arthus e Viard: "os grandes grupos são in fine encorajados a abandonar um certo numero de projectos de desenvolvimento ou de investigação cuja rentabilidade é julgada demasiado fraca por referência às exigências actuais, e que seriam realisados se a norma de rentabilidade fosse razoável (...) Um objectivo rendimento de fundos próprios excessivo produz naturalmente distorções de comportamento pouco favoraveis à economia em geral e penalisantes a curto prazo para as próprias empresas (e por isso tanto para os accionistas como para os seus assalariados): assim, a procura de margens de benefício anormais, a deformação da partilha de rendimentos em detrimento dos salários (...), o sub-investimento e a alergia a projectos de longo prazo. Não o repetiremos em demasia: esta evolução do capitalismo em direcção à 'produção' de lucros que não revertem para investimentos rentáveis nem para o consumo é inquietante (...) é estúpido - e a prazo ilusório - querer estimular o rendimento do capital por um recurso irrazoável ao ROE" (p.85-6) (sublinhado meu)

E provável que para muitos estas questões (relativas à repartição dos rendimentos entre o capital e o trabalho) sejam irrelevantes - sobretudo os que acham que o sistema económico já não é "capitalista". Afinal, como Galbraith ironisa, quando o capitalismo começa a dar problemas, a solução é fácil: arranja-se um novo nome. Agora, chama-se "economia de mercado". Mas quando se fala de trabalhadores demasiado "exigentes", convinha não esquecer que a sua exigência parece ser francamente menor e mais razoável do que quem tem o poder de decisão sobre o investimento (de decisão e, já agora, de chantagem).

* Apesar dos titulos panfletários, os livros de Jean Peyrelevade e Patrick Artus (com Marie Viard) são reflexões sérias e bem documentadas; e os autores estão longe de ser perigosos gauchistes, ou representantes da looney Left, mas conhecedores do funcionamento dos mercados financeiros: o primeiro foi director-adjunto do primeiro-ministro socialista Pierre Mauroy entre 1981 e 1983, e dirigiu em seguida algumas das grandes instituições financeiras francesas (Suez, Crédit Lyonnais, etc.), sendo professor na Ecole Politechnique; o segundo é director de estudos económicos do Group Caisse d'epargne et de la Caisse des dépots et consignations, para além de professor na Ecole Politechnique e na Sorbonne.

terça-feira, abril 04, 2006

A ler

A "defesa do maio francês", pelo Ivan.

segunda-feira, abril 03, 2006

Descubra as diferenças

A distância, parece-me interessante a diferente linguagem e sofisticação de raciocínio usada em vários artigos de opinião para analisar os motins de Novembro passado e os protestos dos estudantes universitários e liceais agora. Na altura, o problema era dos jovens de origem imigrante, muitos deles desempregados, não se 'fazerem à vida' (na memorável expressão de José Manuel Fernandes num editorial do 'Público') e não saberem respeitar a 'generosidade' do Estado francês, materializada no alojamento disponibilizado, nos equipamentos colectivos existentes, etc. Para resumir, 'preguiça' e 'ingratidão' explicavam boa parte do problema.

Agora, o problema já não está nos 'jovens', mas na forma como funciona o mercado de trabalho (como se no caso anterior esta explicação não fosse igualmente ou ainda mais central). Sim, os jovens que protestam podem ser demasiado 'exigentes' e ter expectativas desfasadas de um mundo em globalização, mas a real raíz do problema repousa a inflexibilidade das leis laborais e a falta de incentivos à criação de emprego por parte dos empregadores. Da ética individal do trabalho num caso passamos para o funcionamento de estruturas invisíveis a olho nu que constrangem os indivíduos, tanto no lado da procura como de oferta de emprego; da linguagem da moral vitoriana passamos à linguagem das ciências sociais. Infelizmente, evocar alguns factos sociológicos elementares em Novembro era da ordem 'sociologia de pacotilha' (nas palavras de Pacheco Pereira; o problema, note-se, não era que o que a sociologia podia explicar fosse 'falso', mas apenas 'elementar' e 'óbvio' - logo, depreende-se, 'irrelevante'), era 'compreender' as condições de exclusão para, no fundo, acabar por 'justificar' a violência; agora, o recurso à explicação económica - neste caso, à welfare economics - já é automática e natural, e ninguém precisa de questionar a ética do trabalho dos estudantes e outros jovens. Interessante e elucidativa evolução.

Retrato de uma fatia desta geração


"Les intellos précaires ont entre 25 et 35 ans et sont diplômés. Ils alternent stages, CDD, petits boulots et contrats dans l'édition, le journalisme, la culture et la communication. Cette précarité, choisie pour les uns, subie pour les autres, définit un nouveau rapport au travail et à l'existence en général. En effet, leur consommation est paradoxale, orientée vers les services et les biens culturels, au détriment des postes plus classiques de la consommation des ménages : logement, alimentation, habillement. Un voyage qui décrit avec humour une galaxie mal connue, qui est aussi un mode d'emploi précieux pour des milliers de jeunes précaires des professions intellectuelles."

Este podia ser um dos livros de cabeceira dos estudantes (e outros jovens) franceses em protesto (que parecem continuar a ter o apoio da maioria da população: uma sondagem diz que 71% dos franceses considera que a decisão de Chirac de promulgar a lei levará à radicalização do movimento). Não é o elogio da uma nouvelle classe ouvrière (como nos anos 60), mas a descrição leve e em estilo jornalístico de uma fatia da nova geração, cujo perfil híbrido poderia ser o de "'jornalista-editor-DJ-maquetista', ou o 'biólogo-dançarino-semiólogo-assistente social', ou o 'cosmonauta-arquitecto-realizador-secretário bilingue', ou o 'cantor-gutarrista-secretário de redacção-escritor'" (p.95). Recomendo vivamente. Para muitos se verem ao espelho.

domingo, abril 02, 2006

O elo mais fraco pode fazer parar a rede


Nos EUA continuam os protestos de rua - chegaram agora a Nova Iorque - contra o reforço da legislação sobre a imigração, em discussão no Congresso. Lê-se no Le Monde de hoje:

"Pour montrer l'importance économique des "latinos" aux Etats-Unis, dont dépendent des secteurs entiers, tels l'agriculture, la construction et l'hôtellerie, la communauté hispanique prévoit un boycott national le 1er mai, baptisé "Un jour sans latinos ou un jour sans immigrants". "Pendant une journée, nous n'allons pas nous rendre au travail et nous n'allons rien acheter. Nous allons rester chez nous et nous allons montrer notre soutien à tous ces travailleurs", a déclaré lors d'un rassemblement en Californie Javier Bonales, responsable local du puissant Syndicat international des camionneurs."

Embora a ideia muito em voga de "sociedade em rede" tenha o sério problema de ajudar a negligenciar as desigualdades estruturais entre os indivíduos, permite perceber facilmente como, numa estrutura em "rede" (ou seja, onde a interdependência entre os elementos é alta), os individuos dependam uns dos outros para as mais pequenas coisas - ou, noutra formulação, que os "grandes" dependam inequivocamente dos "pequenos". Se os pequenos resolverem parar, tudo pára. Pena é que muitas eles vezes eles precisem mesmo de "parar" para que a sua presença e actividade seja devidamente valorizada.

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