terça-feira, fevereiro 28, 2006

Circulam...

...pela blogosfera os parabéns pelo primeiro aniversário d'O Insurgente. Da nossa parte, fica uma pequena recordação.


Pleno subemprego















segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Pobreza harmoniosa

O Complemento Solidário para Idosos (CSI) que vai ser introduzido pelo Governo tem originado diversas reacções negativas por parte dos comentadores habitualmente cépticos quando se trata do Estado implantar medidas sérias na luta contra a pobreza. A título de exmplo, vale a pena ler o texto de Luís Salgado de Matos hoje no Público (link só para assinantes). O texto até era merecedor de uma análise ao pormenor, mas deixo duas afirmações interessantíssimas do articulista:

1. "Estabelecer a guerra entre pais e filhos é pior do que manter a 'pobreza'".
Vá lá: no passado, quando a sociedade era uma como uma "família", a paz social era mais preciosa do que a luta contra a pobreza. Nada de grandes confusões, se fazem favor. Antes pobres e dignos do que gananciosos e arrivistas. Mas alterar a paz na família, esse "elemento fundamental da sociedade", isso já é inadmissível. Antes idosos pobres do que fazê-los processar "os filhos para os obrigarem a entregar-lhes a declaração de IRS". Conclusão: a família como "célula protectora" serve para nada fazermos que possa alterar a sua paz, mas já não serve para chamarmos os filhos às responsabilidades para com os pais. Se isso significa para estes a miséria, paciência - nada está acima da "harmonia familiar".

2. "A Segurança Social é por certo a principal causa da quebra da natalidade: os jovens pais descontam tanto que ficam sem dinheiro para criarem os filhos e sabem que não precisam deles como bordão da velhice pois receberão as pensões de reforma."
Eu julgava que era um avanço civilizacional o facto de as pessoas passarem o número de filhos que querem, quando querem, sem terem que olhar para eles como um investimento financeiro para o seu futuro, como acções na bolsa. Estranho conceito de "célula protectora".
Mas o mais interessante está na solução preconizada por Luís Salgado de Matos para resolver o problema da natalidade (que tem para si na segurança social, atente-se, a "principal" causa): se os jovens casais descontassem menos, estes teriam mais filhos e, dada a solidariedade "natural" destes para com os progenitores, o futuro dos pais, uma vez na terceira idade, estaria assegurado. O que é quase cómico é que a solução proposta pelo articulista não é sequer do domínio da sugestão imaginada; é precisamente a realidade que o CSI pretende corrigir: no passado as pessoas pouco (ou nada) descontavam e tinham mais filhos do que hoje. O resultado está à vista: idosos com pensões baixíssimas e o Estado a ter que lembrar aos filhos com posses que os seus pais vivem com menos de 300 euros por mês.

A culpa é sempre dos outros

No The Guardian de hoje lê-se que uma comissão nomeada pelo executivo de Tony Blair para estudar a diferença salarial entre homens e mulheres concluiu que esta atinge no Reino Unido valores que são dos mais altos da Europa. Em média, os salários das mulheres são 17% inferiores aos dos homens; no trabalho a tempo parcial, os valores sobem para os 38%. No entanto, o patronato depressa concluiu que a culpa não é sua: "absolutely not", foi a resposta de John Cridland, director-geral da Confederation of British Industry e um dos 15 elementos que integrou a comissão. A culpa, segundo ele, reside antes na má orientação profissional que a raparigas recebem na escola secundária. Mas a razão de fundo, prosseguiu, está no facto de as escolas, ao darem demasiada atenção aos jovens de origem social mais desfavorecida, negligenciarem a qualidade geral da orientação fornecida à maioria das raparigas e dos rapazes.
Quer dizer: que a orientação profissional concedida às raparigas seja insuficiente e as leve a fazer escolhas dúbias ou mesmo erradas na trajectória de ensino e/ou formação profissional, é plausível; que isso aconteça porque as escolas prestam demasiada atenção aos jovens de origem social mais desfavorecida, enfim, não se percebe bem a relação; mas que a má qualidade da orientação profissional das raparigas esteja na origem da diferença de salários entre homens e mulheres, já começa a ser demais. Então não há responsabilidade nenhuma de quem emprega?

sábado, fevereiro 25, 2006

Choque de civilizações

Quando as galinhas tiverem dentes, Bushevismo e Bolchevismo serão um só

Eu sei que é quase carnaval, que o Benfica ganhou ao campeão europeu, e que os cientistas fizeram as galinhas crescer dentes; mas aparentemente isto é a sério: Francis Fukuyama desatou a escrever artigos pelo mundo fora (no New York Times, The Guardian e provavelmente noutros) e pelo meio apelidou a tribo neo-conservadora que circula Bush de...'Leninistas'.

O artigo seguinte descreve o imbróglio:

'Leninists!' Cries Neocon Nabob, Suing for Divorce

by Jim Lobe

The Washington foreign policy elite finds itself on pins and needles this week awaiting a response from the neoconservative heavyweights at the Weekly Standard magazine to a scorching denunciation by one of their most venerable fellow travelers, Francis Fukuyama, in Sunday's New York Times Magazine.
Fukuyama, best known for his post-Cold War essay proclaiming the historic inevitability of liberal democracy, "The End of History," argued in the Times article that neoconservatives so badly miscalculated the myriad costs of the Iraq war that they may have empowered their two foreign policy nemeses – realists, who disdain democracy-promotion; and isolationists, who oppose foreign entanglements of almost any kind.
Even more provocatively, Fukuyama called the Standard's editor, William Kristol, his ideological sidekick, Robert Kagan, and their neoconservative comrades who led the drive to war in Iraq "Leninist" in their conviction that liberal democracy can be achieved through "coercive regime change" or imposed by military means.
"[T]he neoconservative position articulated by people like Kristol and Kagan was … Leninist; they believed that history can be pushed along with the right application of power and will," according to Fukuyama. "Leninism was a tragedy in its Bolshevik version, and it has returned as farce when practiced by the United States."
"Neoconservativism, as both a political symbol and a body of thought," he went on, "has evolved into something I can no longer support."
Fukuyama's break with the neoconservatives marks the latest – albeit among the most spectacular – fracture in the ongoing splintering of the Republican foreign policy elite that has included aggressive nationalists, such as Vice President Dick Cheney; the Christian Right; traditional realists in the mold of former President George H.W. Bush; as well as neoconservatives.
His divorce from the movement is particularly remarkable given his long and close friendship – dating back to his college days – with former deputy defense secretary (and now World Bank President) Paul Wolfowitz, perhaps the neoconservative movement's most idealistic luminary. He also played a role in the development of the unilateralist Project for the New American Century (PNAC), an organization founded in 1997 by Kristol and Kagan and designed to forge an alliance between the neoconservatives, the Christian Right, and aggressive nationalists in the run-up to the 2000 elections.
Along with Cheney, Wolfowitz, and Pentagon chief Donald Rumsfeld, Fukuyama was one of just two dozen PNAC charter members. He also signed a 1998 PNAC letter to then-President Bill Clinton urging him to "undertake military action" aimed at "removing Saddam Hussein and his regime from power."
Indeed, as late as Sept. 20, 2001, nine days after 9/11, he signed another PNAC letter to Bush that also called for Hussein's ouster "even if evidence does not link Iraq directly to the attack." Anything less, the letter argued, "will constitute an early and perhaps decisive surrender in the war on international terrorism."
Despite those hawkish antecedents, Fukuyama had second thoughts even before the Iraq invasion, particularly about the democratic messianism and unilateralism with which the "war on terror" was being conducted.
In a December 2002 Wall Street Journal article, he warned that "the idealist project" of transforming the region may "come to look more like empire pure and simple" and that "it is not at all clear that the American public understand that it is getting into an imperial project as opposed to a brief in-and-out intervention in Iraq."
But by late 2004, he was writing that anyone – particularly neoconservatives – who believed that the situation in Iraq would become sufficiently stable after elections in early 2005 for U.S. troops to begin withdrawing was "living in fantasyland."
And one year later, Fukuyama was already warning that failures in Iraq were paving the way for a return to U.S. isolationism. He believed that the Abu Ghraib prison scandal, coupled with Washington's failure to marshal international support for its efforts in Iraq and its incompetence in stabilizing the country, had largely destroyed its credibility as a "benevolent hegemon" to which the world, Kristol and Kagan confidently predicted, would willingly, if not eagerly, defer.
Fukuyama's latest article, "After Neoconservatism," is essentially an elaboration of these ideas in a more comprehensive form, as well as a plea for a more modest and classically "conservative" foreign policy that, without abandoning "the neoconservative belief in the universality of human rights," will also be conducted "without its illusions about the efficacy of American power and hegemony to bring these ends about."
To Fukuyama, as to foreign policy realists among both Republicans and Democrats, events of the past few months, particularly the victory of Islamists in elections in Iraq and the Palestinian territories, as well as their strong showing in Egypt, has bolstered his critique of the neoconservative project in the Middle East.
In his view, the way in which the Cold War ended created among neoconservatives like Kristol and Kagan "an expectation that all totalitarian regimes were hollow at the core and would crumble with a small push from outside" – and that Hussein's Iraq would be no different.
"The war's supporters seemed to think that democracy was a kind of default condition to which societies reverted once the heavy lifting of coercive regime change occurred, rather than a long-term process of institution-building and reform," according to Fukuyama.
He noted that that expectation helps explain "the Bush administration's incomprehensible failure to plan adequately for the insurgency that subsequently emerged in Iraq."
The administration and its neoconservative backers also assumed, mistakenly, that the rest of the world would accept Washington's unilateralism, including preemptive war, because, as a "benevolent hegemon," Washington would be seen as both more virtuous and more competent than other countries.
These delusions have come at a very high cost, according to Fukuyama, who, notwithstanding the sweeping pro-democracy rhetoric in which both Bush and Secretary of State Condoleezza Rice continue to indulge, "the neoconservative moment appears to have passed."
But Fukuyama is most concerned that these failures may spur an "anti-neoconservative backlash that coupled a sharp turn toward isolation with a cynical realist policy aligning the United States with friendly authoritarians."
"What American foreign policy needs is not a return to a narrow and cynical realism, but rather the formulation of a 'realistic Wilsonianism' that better matches means to ends," he wrote in what appears to be a bid to delineate a new foreign policy consensus – some already call it "neo-realism" – around which centrist Republicans and Democrats can rally.
Indeed, in the prescriptive part of his essay, he calls for "reconceptuali[zing] … foreign policy in several fundamental ways" that are broadly compatible with ideas put forward by critics in both parties.
These include "demilitariz[ing]" the "global war on terrorism" by focusing more on winning "hearts and minds;" relying less on "coalitions of the willing" and more in multilateral mechanisms "that can confer legitimacy on collective action;" and placing more emphasis on "rule of law and economic development," as well as democracy-promotion, which "in the Middle East is not a solution to the problem of jihadist terrorism; in all likelihood it will make the short-term problem worse, as we have seen in the case of the Palestinian election bringing Hamas to power."
"Neoconservativism, whatever its complex roots, has become indelibly associated with concepts like coercive regime change, unilateralism, and American hegemony," according to Fukuyama. "What is needed now are new ideas, neither neoconservative nor realist, for how America is to relate to the rest of the world."

P.S. - A este ritmo de sucessão de improváveis nesta semana, o Benfica ainda ganha ao FCPorto no domingo.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Bernard-Henri Levi sobre a esquerda americana

Tenho um pequeno ódio de estimação (provavelmente injusto como todos os ódios de estimação) por Bernard-Henri Levy, mas a carta que fez publicar na The Nation sobre a esquerda americana merece leitura e reflexão (talvez a biografia sobre Sartre tenha feito bem a Levy).


A Letter to the American Left

by BERNARD-HENRI LEVY

[from the February 27, 2006 issue]

Translated from the original French by Charlotte Mandell.

Nothing made a more lasting impression during my journey through America than the semi-comatose state in which I found the American left.
I know, of course, that the term "left" does not have the same meaning and ramifications here that it does in France.
And I cannot count how many times I was told there has never been an authentic "left" in the United States, in the European sense.
But at the end of the day, my progressive friends, you may coin ideas in whichever way you like. The fact is: You do have a right. This right, in large part thanks to its neoconservative battalion, has brought about an ideological transformation that is both substantial and striking.
And the fact is that nothing remotely like it has taken shape on the other side--to the contrary, through the looking glass of the American "left" lies a desert of sorts, a deafening silence, a cosmic ideological void that, for a reader of Whitman or Thoreau, is thoroughly enigmatic. The 60-year-old "young" Democrats who have desperately clung to the old formulas of the Kennedy era; the folks of MoveOn.org who have been so great at enlisting people in the electoral lists, at protesting against the war in Iraq and, finally, at helping to revitalize politics but whom I heard in Berkeley, like Puritans of a new sort, treating the lapses of a libertine President as quasi-equivalent to the neo-McCarthyism of his fiercest political rivals; the anti-Republican strategists confessing they had never set foot in one of those neo-evangelical mega-churches that are the ultimate (and most Machiavellian) laboratories of the "enemy," staring in disbelief when I say I've spent quite some time exploring them; ex-candidate Kerry, whom I met in Washington a few weeks after his defeat, haggard, ghostly, faintly whispering in my ear: "If you hear anything about those 50,000 votes in Ohio, let me know"; the supporters of Senator Hillary Clinton who, when I questioned them on how exactly they planned to wage the battle of ideas, casually replied they had to win the battle of money first, and who, when I persisted in asking what the money was meant for, what projects it would fuel, responded like fundraising automatons gone mad: "to raise more money"; and then, perhaps more than anything else, when it comes to the lifeblood of the left, the writers and artists, the men and women who fashion public opinion, the intellectuals--I found a curious lifelessness, a peculiar streak of timidity or irritability, when confronted with so many seething issues that in principle ought to keep them as firmly mobilized as the Iraq War or the so-called "American Empire" (the denunciation of which is, sadly, all that remains when they have nothing left to say).
For an outside observer it is passing strange, for instance, that a number of progressives needed, by their own admission, to wait for Hurricane Katrina before they got indignant about, or even learned about, the sheer scale of the outrageous poverty blighting American cities.
For a European intellectual used to the battlefield of ideas, it is simply incomprehensible that more voices weren't raised long ago, in the name of no less than the force of "the Enlightenment," to denounce the ridiculous fraud of the anti-Darwinian supporters of "intelligent design."
And what about the death penalty? How can it be that there isn't yet, within the political parties, especially the Democratic Party--which everyone knows will never budge on the question without decisive internal pressure--a trend of opinion calling for the abolition of this civilized barbarity?
And Guantánamo? And Abu Ghraib? And the special prisons in Central Europe, those areas where the rule of law no longer applies? I know, of course, that the press has denounced them. I know you have journalists who, in a matter of days, accomplished what our French press still hasn't finished forty years after our Algerian War. But since when does the press excuse citizens from their political duties? Why haven't we heard from more intellectuals like Susan Sontag--or even Gore Vidal and Tony Kushner (with whom I disagree on most other grounds) on this vexed and vital issue? And what should we make of that handful of individuals who, after September 11, launched the debate about the circumstances in which torture might suddenly be justified?
And I'm not even talking about Bush. I won't even mention Bush's gross lies about the Iraqi weapons of mass destruction, except for the sake of assembling the conclusive evidence. I know, of course, that you denounce him--but mechanically, I am almost tempted to say ritualistically. And yet the United States nearly impeached Nixon because he had spied on his enemies and lied. They impeached Clinton for a venial lie about inappropriate conduct. How is it, then, that it took so long to draw a parallel between those lies and a lie about which the least you can say is that its consequences were anything but venial? How is it that so few "public intellectuals" have been found, within the confines of this formidable, impetuous American democracy, who can bring up the idea of impeaching George Bush for lying?
Some will retort that the "public intellectual" is a European specialty, that we shouldn't blame Americans for their infidelity to a tradition that is not their own. What do such killjoys make of the Norman Mailer of the 1960s? Of the Arthur Miller of The Crucible? Or of that golden age of civil rights awareness, when great writers enunciated what was right and good and true?
Others will object that the massive, resounding mobilization of civil society is not an American custom. All you need to do to convince yourself of the untruth of this is remember the 1960s and the movement for civil rights, then for the rights of minorities in general, which were the honor of the country and did not stem, let it be emphasized, from any of the major political parties.
Still others will wax ironic about the disease of writing up petitions, a French specialty, warded off by American pragmatism. Here the objection is more serious; and I know the fatuity that can exist in the mania for nonstop political engagement in the name of myriad causes--but aren't you afflicted, my American friends, with the radically opposite sickness? Hasn't the ethics of sobriety won once too often, with you, over the ethics of conviction? And how could one not yearn for a petition that would address our common nausea when faced with the spectacle of a diabetic, blind, nearly deaf old man, pushed in his wheelchair to the San Quentin execution chamber in California?
I might be mistaken, but it seems to me that a large part of the country is waiting for this. Everywhere, in the innermost reaches of America, you can meet men and women who hope for great voices capable of echoing their impatience in a momentous way. If I were an American writer, I would try to ponder the lessons of the totalitarian century and those of democracy, Tocqueville-style, all at once, in the same breath, and with the same rigor.

(texto via Klepsydra, que por sua vez o havia descoberto n'A Origem das Espécies)

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

As faces do universalismo e da modernidade

O Rui Pena Pires (RPP) escreveu n'O Canhoto um post onde critica uma série de afirmações de Boaventura Sousa Santos (BSS) incluidas num artigo escrito na revista 'Visão' (16.02). O debate parte da controvérsia das caricaturas para abordar temas mais vastos da relação entre os paises do 'Norte' e do 'Sul' (sou eu que uso estos conceitos; faço o por conveniência, mesmo reconhecendo as suas eventuais fraquezas; de qualquer forma, não acho que isso belisque os argumentos aqui apresentados) que me parecem importantes discutir com atenção (digo desde que não sou advogado de defesa de BSS e os argumentos apresentados por ele - que são comuns, já agora, a muitos outros autores - interessam-me em si, independentemente de quem os avançou).

A. Citando BSS, RPP escreve:
""os universalismos da Europa das caricaturas (incluindo o da liberdade de expressão) sempre foram falsos e só foram accionados quando conveio. Ao mesmo tempo, os mesmos países que garantiam os direitos aos trabalhadores europeus sujeitavam os trabalhadores coloniais ao trabalho forçado". O que Boaventura Sousa Santos parece esquecer é que o valor do universalismo não só não passa a falso quando não aplicado, como a sua não aplicação apenas pode ser contestada com eficácia por referência a esse mesmo universalismo."
BSS, parece-me, sofre do que, com Bourdieu (em entrevista com Terry Eagleton na "New Left Review", 1992, n°191, jan/fev), podemos chamar de 'síndroma de Mao Tze Tung', que leva um autor a "forçar demasiado a mão (...) na tentativa de corrigir uma tendenciosidade anterior". Isto leva-o a cometer exageros em muitas das análises e a introduzir um grau de parcialidade excessivo - que alguns poderão ver como justificado. Não sei se BSS procura 'falsificar' o valor do universalismo (também não sou hermeneuta da sua obra), mas, independentemente da sua intenção, a verdade é que a crítica do uso cínico do universalismo não precisa de ser ela propria cínica. Ela pode ser mesmo o melhor defensora do universalismo, desde que o reconhecimento do valor intrínseco deste esteja assegurado (RPP afirma que é isto que BSS não faz - algo que não sei se é inteiramente preciso, mas isso é outra discussão). É preciso reconhecer que o universalismo tem dois lados: o teórico/abstracto, e o concreto/prático. E a verdade é que é mais fácil reconhecer e proclamar o primeiro, deixando o segundo entregue à real politik da estratégia empírica. A crítica do cinismo, duplicidade e falsidade do 'universalismo' pode ser tão perigosa quanto a afirmação do universalismo 'abstracto' pode ser oca e hipócrita. Não vale a pena jogar uma dimensão contra a outra, o filosofismo contra o sociologismo, porque o exercício é política e intelectualmente suicida. Precisamos defender o universalismo em abstracto; e precisamos de uma análise empírica do uso falso universalismo em concreto. As duas são importantes, e uma não substitui a outra: se tivermos isto em conta, então podemos investir a argumentação num dos lados sem que o outro fique descoberto: num dado contexto, podemos argumentar que no caso empírico X existe um défice de universalismo ou um uso cínico ou ideológico do mesmo princípio, sem com isso beliscar a importância intrínseca do mesmo; noutro contexto, podemos defender a valor intrínseco do universalismo independentemente de em 99% dos casos este ser empiricamente violado. Os exageros de um outro lado não precisam de significar a falsificação do outro. Pelo contrário: podem e devem ser a sua melhor defesa. Esta mudança de posiçao é retórica - nao é intelectual, nem filosófica, nem política, simplesmente porque, em contextos diversos e perante adversários e audiências díspares, podemos defender a mesma coisa dizendo coisas aparentemente contraditórias.

B. RPP escreve mais abaixo: "Argumenta ainda Boaventura Sousa Santos que "o mundo islâmico exterior só conhece da Europa e dos seus aliados a guerra da agressão, a pilhagem dos recursos naturais, a demonização da sua cultura, a inacção ante o terrorismo de Estado de Israel, a humilhação diária nos aeroportos e universidades europeias." É falso. Nele se conhecem, também, os antibióticos, os automóveis, os aviões, as telecomunicações, até o nuclear. Isto é, nele se conhecem e procuram com afinco os produtos tecnológicos da modernidade".

Esta questão é delicada. Tentemos equilibrar a balança num primeiro momento: BSS está seguramente errado quando diz que o mundo islâmico SÓ conhece da Europa (...); como RPP diz bem, ha TAMBÉM os "antibióticos, os automóveis, os aviões, as telecomunicações, até o nuclear" (diga-se que, com este "também", pelo menos RPP não parece disposto a refutar - ou pelo menos está disposto a aceitar - a veracidade (mas não a exclusividade) dos elementos listados por BSS na frase citada, algo que seria interessante confirmar). Admitamos portanto que ambas as listas (necessariamente incompletas, mas isso é o menos para o caso) de BSS e de RPP são verdadeiras e devem entrar numa avaliação não-maníqueista do problema. A questão seguinte, porém, é se a duas 'listas' são simétricas e se, consequentemente e pour aller vite, com a segunda podemos 'lavar' a primeira. A minha resposta inclina-se para um 'não'. Isto é importante, parece-me, por duas ordens de razão, uma (B.1) empirica, outra (B.2) politico-estratégica.
(B.1.) E obviamente difícil chegar a consensos empíricos quando entramos no plano da aritmética e do trade-off entre o reconhecimento e a distribuição (para utilizar os termos de um debate importante na filosofia social e politica contemporanea): o que é que compensa o quê (por ex.: será a humilhação racial compensada pelo acesso aos automóveis e aos microondas? se sim, por quantos automóveis e microondas?) pode gerar um debate interminável; mas isso não significa que não haja formas de o tentar arbitrar. Uma das formas é procurar saber até que ponto as duas listas implicam relações de simetria entre a 'Europa' (=Norte) e o 'mundo islâmico' (=Sul). E a resposta parece ser 'não'. Assim, a primeira lista, a da "guerra da agressão, da pilhagem, da demonização cultural (...)", enumera factos que trazem benefícios varios ao Norte, com custos mais ou menos elevado para os habitantes do Sul: tanto materiais (plano da (re)distribuição) como simbolicos (plano do reconhecimento).
Já a segunda lista, a de RPP, não inverte a relação de forças nem compensa a assimetria instaurada na primeira, porque os benefícios que ela traz ao Sul são sempre mediados (para não dizer controlados) e indexados aos benefícios que ela traz ao Norte. Assim, se é verdade que os habitantes desses países conhecem os "antibióticos, os automóveis, os aviões, as telecomunicações, e até o nuclear", corremos o risco de esquecer as perguntas que me parecem mais importantes, a saber: quando é que isso acontece, como, definido por e em benefício de quem. Estas questões são mais importantes do que simplesmente saber se esses artefactos chegam ou não a esses habitantes. Assim, não é da ordem do cinismo gratuito, mas da economia política internacional elementar afirmar que a maioria desses artefactos chega a esses habitantes mediante regras, condições e timings definidos pelos países do Norte: tanto a 'ajuda ao desenvolvimento' (dominante nas 'décadas desenvolvimentistas' de 1960 e 1970), bem como os empréstimos financeiros internacionais (em particular nas décadas de 1980 e 1990) permitiram aos países do Norte escoar boa parte da produção de artefactos banalizados nos saturados mercados europeu e norte-americano (automoveis, televisores, frigoríficos, etc.); ou seja, a grande maioria do dinheiro que saía do Norte tinha o bilhete de regresso garantido. Por exemplo, a crise na Europa na década de 70 foi atenuada e adiada pelo poder de compra concedido às elites (e convém não esquecer isto: às elites) dos países do Sul para comprar os artefactos exportados pelos países do Norte. Esse dinheiro foi emprestado de uma forma que qualquer instituição qualificaria hoje de completamente irracional, para procurar absorver a crise no Norte, afundando os países do Sul - com a cumplicidade e corrupção das suas elites - em dívidas brutais; alguns anos depois, a mesma postura irresponsável transformou a atitude de 'mãos largas' dos bancos e instituições internacionais de crédito numa atitude draconiana proto-criminosa, exigindo de um momento para o outro o pagamento com juros altíssimos que fazem com que as dívidas cresçam mesmo quando se procede ao seu pagamento. (e, já agora, em nenhum país do Norte - e alguns tinham dividias enormes - foi semelhante contracção exercida com a mesma violência, pela simples razão que isso seria política e socialmente suicida).
Para resumir: os artefactos modernos chegam aos países e habitantes do Sul, sim, mas quando isso é do interesse dos actores políticos e económicos relevantes dos países do Norte; quando não interessa, ou não chegam, ou chegam mediante condionantes particularmente draconianas e/ou escandalosas (como recentemente no caso dos medicamentos retrovirais - e isto, atente-se, sem ilibar o comportamento quase criminoso de alguns líderes nacionais, como o presidente sul-africano Mbeki).
Afinal, para que é que tudo isto interessa? Interessa para afirmar que entre as duas listas não existe uma relação de subtracção ou compensação; no fundo, elas elas são uma e a mesma: a chegada dos automóveis e antibióticos etc. pode muito bem não contrabalançar os elementos negativos (da lista de BSS) pelo facto de mesmo a sua chegada a esses habitantes estar directa e organicamente ancorada em relações de troca profundamente inigualitárias.
Mais: não é de todo descabido pensar que essa estrutura de troca por vezes escandalosamente desigual pode estar, pelo menos em parte, na origem do que hoje parece ser dominante em muitas partes do mundo: o facto de muitos habitantes desses países usarem esses 'artefactos modernos' sem adoptarem (ou sem se sentirem obrigados ou inclinados a fazê-lo) a 'cultura da modernidade' - precisamente porque tendem a associar a 'modernidade' não aos artefactos em si (que, afinal, são passíveis de serem manipulados em mundos-da-vida altamente diversificados), mas às condições e regras da sua chegada. Daí que possam adoptar o uso dos 'nossos' artefactos, continuando a olhar cinicamente - ou com indiferença, ou distância, ou rancor - para o 'nosso' universalismo.
O ponto (B.2) fica guardado para o post seguinte.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Regresso ao futuro

domingo, fevereiro 19, 2006

Acrobacias

Chamo a atenção para o post de hoje do João Pinto e Castro no Blogoexisto:

Crescimento e propaganda
O Economist desta semana faz notar, num artigo intitulado "A numbers racket" inserido na sua secção "Finance and economics" que a informação económica divulgada pelos media tem sistematicamente iludido o público acerca da alegada disparidade entre o crescimento dos EUA e da zona Euro em favor dos primeiros.Segundo as primeiras estimativas publicadas, os EUA cresceram 3,1 % ao ano entre 1999 e 2004, contra apenas 1,5% na Europa. Mas os dados finais, após revisões, revelam um quadro muito diferente: afinal, os EUA apenas cresceram 2,8%, ao passo que a Europa cresceu 2%. Além disso, o diferencial positivo a favor da América é inteiramente devido à distinta dinâmica populacional das duas regiões. Logo, o PIB per capita terá crescido exactamente ao mesmo ritmo na Europa e nos EUA.Mas há mais: como os EUA usam uma metodologia de cálculo do produto (o chamado índice dos "preços hedonistas") que tende a sobrestimar o seu valor em relação ao europeu, estima-se que o PIB per capita da zona euro deverá na realidade ter crescido mais 0,5% do que o americano. Estes factos são conhecidos há muito tempo. Eu próprio já aqui os mencionei. A novidade consiste no facto de uma publicação como o Economist, usualmente tão empenhada em gabar a superioridade do sistema americano, se decidir finalmente a prestar-lhes alguma atenção.


Mesmo que estes pormenores sejam já do domínio público, nunca é demais sublinhá-los com alguma regularidade - para ver se são capazes de contrariar as meias-verdades que por aí abundam e que, de repetidas ate à exaustão, se transformam em doxa económica.

Desconstruções

A propósito das declarações do Ministro da Saúde sobre um eventual novo modelo de financiamento do SNS ler o artigo "A sofística do Ministro da Saúde" de Mário Mesquita no "Público", e o óptimo texto de Rui Pena Pires n'O Canhoto, sobre a crítica ao universalimo dos serviços públicos, tão em voga nos dias que correm.

sábado, fevereiro 18, 2006

Presente envenenado?

É cedo para avaliar o que as palavras de ontem do ministro Correia de Campos significam quanto ao futuro; para já, o ministro admitiu que eram um alerta interno, dirigido sobretudo aos administradores hospitalares para controlarem as despesas desnecessárias, para depois afirmar que o «SNS está de boa saúde e recomenda-se». Isso não impediu, porém, que José Manuel Fernandes (naturalmente) voltasse à carga hoje no "Público" (link só para assinantes) relativamente à necessidade 'natural' de reduzir as responsabilidades do Estado relativamente às do cidadão. Vários pontos do seu editorial mereciam um comentário - o facto de falar dos modelos de protecção social da Europa e dos EUA sem nunca citar números, para dizer que não são assim tão 'diferentes', bem como o orgulho que revela em desafiar 'tabus' (para quem não tem nenhum tipo de lealdade por determinados princípios político-ideológicos, é fácil chamá-los 'tabus') -, mas o mais interessante reside nas frases finais: "...todas as previsões demográficas indicam que, até para co-responsabilizar os cidadãos no nível de cuidados de que querem beneficiar, os que podem pagar vão naturalmente pagar mais, mesmo nos serviços públicos, libertando recursos para os que têm dificuldades."
Ora, esta afirmação não pode ser interpretada à revelia de duas coisas muito importantes em toda esta discussão:
1) se o sistema é na sua larga maioria financiado pelo impostos, e se a tributação é progressiva, então o principio de diferenciação já está presente; esquecer isto só pode ser da ordem da má fé, porque quando a progressividade interessa, ela é motivo de queixa (e JMF já defendeu o sistema de flat-rate); quando já não interessa, omitem-na para argumentar que é preciso introduzir diferenciação em nome dos mais desfavorecidos (ontem, a deputada do CDS-PP, Teresa Caeiro, fez também misericordiosas afirmações nesta linha).
2) segundo, estender o principio de diferenciação ao uso do sistema é um presente absolutamente envenenado "para os que têm dificuldades", dado que teria como consequência imediata atirar os mais favorecidos para fora do SNS: não só porque não aceitariam ser duplamente tributados; mas porque se se coloca o caso de terem de "naturalmente pagar mais" para ir a um serviço publico, então o mais lógico é que recorram imediatamente ao sector privado - com a consequência que esse recurso ao privado acabaria por contribuir para uma perda de qualidade do sistema publico (e convém lembrar que Portugal está muitíssimo bem colocado no ranking como Organização Mundial de Saúde, sempre às portas do top ten), de acordo com a máxima services for the poor are poor services.

Dito isto, convém lembrar que os EUA, cujo sistema é altamente particularista, são o pais que mais gasta na saúde em relação ao PIB (cerca de 15%, quando em países como a Inglaterra ou a Suécia anda à volta dos 9%); isto explica-se em larga medida pelo fraco peso da mão do Estado na área, dado que este é o único agente que pode e está interessado em controlar as despesas (o sector privado estará sempre interessado em vender mais medicamentos, ou em adoptar a ultima tecnologia de ponta, etc.). Pode-se dizer: "bom, mas o grosso desse montante não é dinheiro público, mas privado": isso é verdade, mas é importante lembrar que é dinheiro - e estamos a falar de muito dinheiro - que tem de ser gasto por quem recorre aos serviços. A ideia que fica quando ouvimos que a saúde fica cara aos contribuintes e que é necessário reduzir a componente do Estado na prestação/e ou financiamento dos cuidados de saúde é como se, se o fizéssemos, a saúde ficasse, como que por magia, mais barata para cada um de nós. A questão é que se a fatia do 'contribuinte' decresce, a fatia do 'consumidor' aumenta, e não só provavelmente aumenta bem mais do que o que se conseguiu poupar pelo outro lado (por outras palavras, há todas as probabilidades do 'doente-contribuinte público' estar financeiramente mais protegido do que o 'doente-consumidor privado'), como se está inevitavelmente a criar é um two-tier system, um sistema para ricos e outro para pobres. O argumento liberal de que num sistema competitivo os preços baixarão naturalmente, fruto da mão invisível do mercado, esbarra, no plano da saúde, numa realidade incontornável: não só as altas tecnologias são necessariamente caras, como a produção de muitos medicamentos é tão dispendiosa (e complexa: podem passar-se anos antes que um medicamento chegue ao mercado, pelo que os custos só podem ser suportados por um pequeno número de empresas de ponta no sector) que a lógica da concorrência - sobretudo num sector onde o grau de cartelizaçao é elevado - tem limites necessários (junte-se a isto o poder de fechamento profissional dos médicos, cuja regulação mantém os seus salários elevados - e em Portugal eles pesam e bem sobre o sistema; basta comparar com os valores praticados em Espanha).
Em Inglaterra, o New Labour de Tony Blair tem sido criticado à esquerda por abusar das parcerias entre o público e o privado, introduzindo mais dinheiro e mais interesses deste último que podem, dizem os cépticos, vir a minar por dentro, a médio prazo, o espírito e a prática do National Health Service; mas a verdade é que isto tem permitido ao New Labour deixar intocado o princípio fundamental do sistema (e para JMF isto seria um tabu a ser 'corajosamente' desafiado): o de ser free at the point of delivery. (e, já agora, David Cameron, o novo lider do Partido Conservador, já veio dizer que manter o National Health Service nos seus princípios essenciais é uma prioridade nacional.)
Quando JMF escreve que o "mundo muda, o que deve ficar por conta do Estado e o que deve ser por nossa conta também vai mudando. Quem mais depressa o compreender e se adaptar terá por regra mais sucesso", trata-se de um convite aberto para o "indivíduo ambicioso" saltar fora do sistema e a abandonar o contrato interclassista em que qualquer sistema universal assenta (e sim, para utilizar uma linguagem de outros tempos, estamos perante um contexto de luta de classes, não feita nas ruas, mas democrática e institucionalmente mediada). E, já agora, vai precisamente contra essa "co-responsabilização" de que fala na frase anterior: é o contexto de no exit que obriga a uma co-responsabilização - não o que incentiva a essa fuga. Neste caso, o "sucesso" de que fala deve medir-se em termos colectivos/societais e não apenas individuais, pelo crucial motivo de que a saúde - e não apenas a 'saúde pública' propriamente dita, mas a saúde individual também - é um bem público e com impacto em terceiros, seja a nível familiar, seja a nível profissional. E neste ultimo plano, já que tanto se critica o peso da regulação do mercado de trabalho na Europa por comparação aos EUA, e o impacto negativo que isso tem na competitividade e na decisão dos investidores, convém não esquecer que "since European societies with public systems of health care spend less than America's privatized system, higher labor costs in Europe are in the aggregate offset by higher health care costs in the United States" (a citação é de Neil Fligstein, do seu "The Architecture of Markets. An Economic Sociology of Twentieth-First-Century Capitalist Societies", New Jersey, Princeton University Press, 2001, p.236). Ou seja, a existência de um sistema de saúde público pode muito bem funcionar como uma vantagem comparativa.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

A Construção dos Estados





Consta que "Francis-o-senhor-'fim-da história'-Fukuyama" escreveu um pequeno livro a defender a urgência, nos países em desenvolvimento, do aumento da "força básica das suas instituições públicas, para que desempenhem aquelas funções fundamentais que só os Estados podem desempenhar" - o que, notoriamente, já começou a inquietar as hostes (neo-)liberais. Quanta ingratidão: para com Fukuyama, sim, mas sobretudo para com o Estado - onde estava hoje o 'capitalismo' (ou 'economia de mercado', como hoje diz o economicamente correcto) sem a acção protectora e construtiva da mão visível do Estado?

Podiam era dizê-lo de forma clara mais vezes II

"Tony Blair today said the US detention camp at Guantánamo Bay in Cuba was an "anomaly" that would have to be "dealt with".
In Berlin to meet the German chancellor, Angela Merkel, the prime minister was asked whether he supported a call from his Northern Ireland secretary, Peter Hain, for the centre to be closed.
"I have always said it is an anomaly, and sooner or later has to be dealt with," the prime minister told a news conference, repeating a comment he made to MPs last November.
Last night, Mr Hain told BBC1's Question Time: "I would prefer that it [Guantánamo] was not there. I would prefer it was closed, yes."
Asked whether it was government policy that Guantánamo should be shut down, he replied: "That's what I think."
Mr Hain was asked for his reaction to a United Nations report, backed by UN secretary general Kofi Annan, calling for inmates to be tried or released and for the camp's immediate closure. Some aspects of prisoners' treatment, including the force-feeding of hunger strikers, amounted to torture, the report said. (...) "What we have said all along is, we don't agree with that," he said. (...) He added: "We've always said that Guantánamo Bay was something that should not have happened."

O resto da noticia pode ler-se no The Guardian de hoje.

Podiam era dizê-lo de forma clara mais vezes

"O Ocidente tem de praticar - e de ser visto a praticar - os valores que apregoa. É por não admitirmos a tortura que somos superiores aos bárbaros. Se usarmos os seus meios, então não vale a pena mandar soldados morrerem em defesa de valores em que, pelos vistos, não acreditamos. A ser esse o caso, a invasão do Iraque, que inicialmente apoiei, foi um equívoco". (Maria Filomena Mónica, PÚBLICO, 17/02)

Reconsiderando o “choque de civilizações”...

“EUA dizem que a ONU se ‘desacredita’ com o relatório divulgado hoje” sobre as condições de detenção em Guantánamo, onde é exigida a “libertação dos detidos ou a sua transferência para prisões norte-americanas, depois de questionar as práticas de interrogatório e as condições de detenção dos cerca de 500 ‘combatentes inimigos’ presos há quatro anos naquela base militar”. Passadas algumas horas depois da divulgação, o “Parlamento Europeu adoptou uma resolução de apoio ao relatório onde apela aos EUA para que ‘encerrem o centro de detenção da Baía de Guantánamo’ e julguem os presos aí detidos ‘perante um tribunal competente, independente e imparcial (...) [e] ‘que cada prisioneiro seja tratado de acordo com a lei humanitária internacional e julgado sem demora no âmbito de uma audiência pública e equitativa’” (Público). No seguimento do mesmo relatório, e depois de ver negada a libertação de três residentes britânicos presos em Guantánamo, um “high court judge”, considera que "America's idea of what is torture is not the same as ours and does not appear to coincide with that of most civilised nations" (The Guardian).
De facto, a avaliar pela definição que a administração de Bush faz da tortura e a noção que tem dos direitos humanos e das liberdades cívicas, vale a pena perguntar se afinal não temos mesmo um “choque de civilizações” onde menos seria de esperar: entre a Europa e os EUA.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Nostalgia colonial?

"(...) Haverá uma forma de racismo mais ultrajante do que a nossa complacência? A aceitação de que os valores que entendemos como universais são afinal fruto exclusivo da nossa cultura e da nossa riqueza, não são valores a que podem aspirar e pelos quais têm o direito de lutar todos os povos do mundo? Haverá melhor forma de alimentar a islamofobia no Ocidente do que considerar justificáveis os actos dementes e de violência contra o Ocidente? É preciso mudar os termos da discussão e pôr fim de uma vez por todas ao politicamente correcto."

Teresa de Sousa (Público, 07/02)

Estas palavras, perfeitamente orwellianas - o racismo advém, afinal, de não sermos racistas; a islamofobia combate-se, afinal, promovendo a retórica agressiva contra os 'bárbaros' -, mais o discurso sobre um Ocidente acusado de sistematicamente "baixar as calças", obrigam a definir posições. O princípio da liberdade de expressão foi defendido (e leia-se o óptimo texto de Ronald Dworkin publicado no The Guardian de 14/02); agora o que faltava era que a esquerda herdeira dos valores Iluministas, depois da tomada de posição perante o fundamentalismo islâmico, caísse nas mãos da direita (e pelo que se tem escrito, já nem sei se é extrema ou moderada) que faz a leitura da tradição Iluminista que lhe convém, e transforma 'universalismo' em 'imperalismo'.
Nas últimas semanas, fomos todos ao baú da nossa herança Iluminista para defender o princípio não-negociável (embora, como todos sabemos, legalmente circunscrito) da liberdade de expressão - especialmente num caso de suposta blasfémia. E ainda bem que assim foi. Agora, não sejamos ingénuos: os mesmos Voltaire e Hume que nos honram nesta questão eram também da opinião, respectivamente, que "Blacks are inferior to Europeans, but superior to apes", ou que "The black might develop certain attributes of human beings, the way the parrot manages to speak a few words." É tão importante evitar o autoflagelo anti-universalista que nas universidades deu origem e continua a alimentar o infâme 'pós-modernismo', como ter coragem de fazer uma leitura séria da história das relações entre o Ocidente e o resto do mundo (e, francamente, Freitas do Amaral tem feito muitas asneiras durante todo este processo, tem colocado o Governo em apuros desnecessários e não já não escandalizaria ninguém que a sua cabeça rolasse dentro em breve; mas não percebo onde está a blasfémia ao afirmar que o Ocidente tem sido, na relaçao com os supostos 'bárbaros', mais agressor que agredido - ou melhor, percebo, e é isso que me assusta) e a história politica e intelectual dos últimos 350 anos. Não se trata de 'culpar' Voltaire, Hume e outros pensadores pelas relações coloniais e imperiais do último terço de milénio; porém, a afinidade existente entre o que eles pensavam sobre os não-ocidentais e o processo colonizador dos mesmos não pertence propriamente ao plano da coincidência. Podemos sempre dizer: "ah, àquela época era normal dizer-se isso". Talvez. Mas aqui colocam-se dois problemas:
(1) se hoje recuperamos estes autores para justificar e defender as nossas instituições e modo de vida, então convém não fazer uma leitura excessivamente selectiva, at best, e hipócrita, at worse, do legado Iluminista. E preciso dizer quão importante foi o seu impacto intelectual e politico na época; mas igualmente quão instrumentais (e/ou instrumentalizadas) foram as suas ideias para justificar a dominação ocidental sobre largas áreas do planeta. A reacção da nossa intelligentsia às declarações de Freitas do Amaral supra-mencionadas revelam uma leitura da historia que se podia resumir, em linguagem de conto infantil, assim: "o Ocidente foi altruisticamente espalhar o Bem pelo mundo e foi recebido por um bando de bárbaros ingratos que ainda hoje querem nos eliminar da face do globo". Se queremos defender a herança Iluminista e não, como muitos à esquerda, mandar fora o bebé com a água do banho, então estas terão que ser umas lumières tamisées, na bela expressão de Philippe Corcuff.
(2) Se não o fizermos - e esta é a segunda questão -, então caímos nos braços dos que, confundindo 'universalismo' com 'imperialismo', citam Locke e Hume et al. sem filtrar o cariz exclusivista e não-universalista das suas ideias; dos que não conseguem senão viver em guerra (seja para defender os seus interesses próprios, seja para propagar os 'valores ocidentais', ou ambos) porque, como para Carl Schmitt, fazer a guerra é a mais forma mais alta e nobre de fazer 'politica'; dos que, como para Nietzsche, acham que a moral (universal) é o alimento dos fracos. As ideias Iluministas, é verdade, permitiram a instauração dos direitos civis e políticos na Europa e nos EUA; mas, da mesma penada, também legitimaram que os ocidentais, por se considerarem os mais avançados 'civilizacionalmente', se sentissem legitimados em 'externalizar' (para falar como os economistas) toda a violência e desdém que o processo civilizacional procurou eliminar no Ocidente (bom, e já nem entro na exclusão inicial dos não-proprietários, das mulheres, etc.), impondo-os às populações além-fronteiras. A liberdade e a democracia por 'cá' (de que todos nos orgulhamos) tinham como equivalente o colonialismo e a dominação arbitrária por 'lá'. É por isto, por este motivo tão simples, que os 'bárbaros' olham para os nossos 'direitos' como uma racionalização da superioridade de facto, ou pouco mais que self-serving ideology.
A ver vamos, nos próximos capítulos, se por detrás do actual discurso do 'anti-politicamente correcto' e do 'parler vrai' não se esconde, pura e simplesmente, uma assustadora nostalgia colonial.

Subtilezas II

"Bush pede 75 milhões de dólares ao Congresso para 'promoção da democracia no Irão'" (Público) ou, como quem diz, "The Bush administration made an emergency request to Congress yesterday for a seven-fold increase in funding to mount the biggest ever propaganda campaign against the Tehran government, in a further sign of the worsening crisis between Iran and the west" (Guardian).

Divergência de PC's

O que para muitos é a terrível ascenção do Politicamente Correcto, para outros é a simples marcha (passe o evolucionismo fora de moda) do Processo Civilzacional (em homenagem a Norbert Elias).

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Propostas construtivas

Subtilezas

"Carga fiscal aumenta em Portugal e baixa na União Europeia

O peso das receitas fiscais sobre o Produto Interno Bruto (PIB) da União Europeia caiu ligeiramente na década entre 1994 e 2005, segundo um estudo divulgado pelo Eurostat. Em 1995, as receitas fiscais representavam 41,2 por cento do PIB da União a 25 (41,6 por cento na zona euro); em 2004, o peso dos impostos sobre o total do PIB era de 40,7 por cento (41,1 por cento na zona euro). A tendência não é contudo acompanhada por Portugal: em 1994, as receitas fiscais equivaliam a 32,7 por cento do PIB português, em 2004 já valiam 35,6 por cento. Ainda assim, o peso dos impostos sobre a riqueza produzida continua a ser inferior em Portugal às médias comunitárias (...)."

A estrutura desta notícia - publicada no 'Publico' de 14/02 - é algo a que imprensa já nos habitou, mas nunca é demais indicar o subtil mecanismo retórico aqui accionado: primeiro, o título indica uma grande tendência; linhas abaixo, quando os dados são apresentados no seu devido contexto histórico e político-económico, vemos afinal que a 'grande tendência' merecedora do título não vale quase nada. Neste caso, os valores em Portugal das receitas fiscais em relação ao PIB, apesar da subida de 2,9% (de 32,7% para 35,6% entre 1995 e 2004), estão 5,5% abaixo da média da zona Euro, que se cifra em 41,1%. Mas fazer uma notícia realçando este facto (em vez daquele que efectivamente 'faz' o titulo) não passaria, claro, pela cabeça de ninguém... Esta notícia, diga-se, pelo menos permite alguma comparabilidade e enquadramento dos dados. Muitas vezes, porém, isso é de todo impossível, particularmente quando se trata artigos de opinião que rapidamente usam uma qualquer tendência político-económica para tirar conclusões rápidas e ideologicamente correctas sem avaliar seriamente o que a tendência para a qual os dados parecem 'evidententemente' apontar quer exactamente dizer. Temos visto isto nos ditos e escritos - só para dar o exemplo de uma área ideologicamente delicada - sobre os números da protecção social em Portugal: lançam-se estatísticas para o ar sem saber o que elas querem dizer e quando se fazem comparações, o trajecto histórico das últimas décadas é complemente apagado (ver aqui dados do post de Paulo Pedroso de 11/01/06 que ajudam a desfazer algumas ideias - mal - feitas sobre este assunto).

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Usos e abusos da tese do "choque de civilizações"

No Margens de Erro, o Pedro Magalhães dá um óptimo contributo para a desmistificação da tese do “choque de civilizações”. Convém que os nossos comentadores de serviço saibam do que falam quando se referem a este famoso argumento para ler (e justificar) todo e qualquer conflito relacionado com o Médio Oriente.

Welfare vs. Warfare State

Too much incompetence or too little will?

"Todos os níveis de governação - da Casa Branca às autoridades locais - falharam na resposta ao furacão Katrina que atingiu a costa Leste dos EUA em Agosto, revela um relatório elaborado por 11 congressistas republicanos a que a imprensa americana teve acesso. O documento, a ser divulgado hoje, revela que a Administração Bush adiou a evacuação de milhares de residentes de Nova Orleães, apesar de ter sido alertada para a ruptura dos diques que provocaram a inundação da cidade" (DN de 13/02/2006).

Um dos momentos que mais me marcou em 2005 foi o que se passou em Nova Orleães e locais adjacentes após a passagem do furacão Katrina. Na minha memória ficaram gravadas as mais incríveis e emocionadas palavras proferidas pelos membros negros do Congresso norte-americano, questionando em directo, via CNN, George W.Bush sobre como é que o mesmo país que era capaz de 'transportar' um hospital e 'montá-lo' no Iraque, a milhares de quilómetros de distância, em cerca de 12 ou 14 horas, não era capaz de acudir a largos milhares de concidadãos em risco de vida, sem água, comida e alojamento, fruto de uma situação previsível.

No rescaldo de tudo isto, ficam para mim:

=> uma certeza: que a classe social e a cor da pele explicam na quase totalidade a inacção da administraçao norte-americana (não há nada como colocar uma questão contra-factual: quantos minutos - não dias, não horas, mas minutos - teria demorado o auxílio se o furacão tivesse atingido Manhattan?)

=> e uma pergunta: se Bill Clinton foi perseguido e quase impeached por aquilo que sabemos, o que devia acontecer a George W.Bush?

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Parar para pensar

O consenso em torno da inevitável intervenção armada sobre o Irão já está organizado pelos opinion makers cá do burgo. Um dos argumentos avançados é o de que o presidente iraniano Amahdinejad seria uma espécie de novo 'Hitler'.
Sejamos sérios. Não há comparação entre a situação actual e a que se viveu nas vésperas da (e levou à) Segunda Guerra Mundial. A entrada para o conflito, a Alemanha era 'só' o país mais bem armado do planeta. Hoje, o Irão é, só no Médio Oriente, o mais desarmado quando comparado com o Paquistão e a Índia, já para não falar de Israel. E é lamentável que ninguém olhe de frente a pergunta que todos os iranianos acham legítimo colocar: "se os nossos vizinhos têm a bomba, porque não havemos nós de ter também?": "The most telling charge against established nuclear powers such as the US and Britain is that of double standards: why is there one rule for you and another for the rest? More acutely still: why is there one rule for Iran but quite another for Israel and India? To say "Oh, that's because they are responsible democracies" raises the question, "Who decides which states are responsible democracies?" And anyway, Pakistan isn't" (Timothy Garton Ash, The Guardian 02/02/2006).
Amahdinejad pode ser louco mas não é idiota. O que vai fazer ele: carregar no botão e destruir Israel? Tomar conta do Médio Oriente? Dominar o mundo? Mas também não parece que Amahdinejad seja irracional. Há anos que se diz que o Irão seria o alvo norte-americano a seguir ao Iraque, acontecesse o que se acontecesse. Se Bush pudesse pedir uma ajuda divina (e se calhar até pode), ele pediria seguramente um qualquer Amahdinejad para liderar um pais incluído no 'eixo do mal'. Estranha coincidência esta, o do Irão querer desenvolver armamento nuclear precisamente no momento em que sabe estar no mapa do fogo alheio; será para se proteger e evitar ser um alvo fácil?
E se o leitor pergunta porque é que nós havemos de estar preocupados com o que os iranianos pensam de toda esta história (ou seja, por que é que a legitimidade matters), é tão só porque qualquer democratização do Irão partirá principalmente da sua percepção de todo este processo. Como vários observadores atestam, existe no Irão uma geração progressista e pró-ocidental: "many Iranians, especially among the two-thirds of the population who are under 30, hate their regime much more than we do. Given time, and the right kind of support from the world's democracies, they will eventually change it from within" (Timothy Garton Ash, The Guardian 24/11/2005). Isto parece trivial, mas convém lembrar, para aqueles que gostam de fazer comparações particularmente selectivas com outros momentos históricos, que não precisam de olhar muito para trás nem para muito longe (i.e., veja-se o Iraque hoje) para perceber que a democracia não se 'impõe' à força (como demorou tempo a muitos a perceber que não basta uma revolução popular para 'impor' o socialismo); a verdade é que, se se chegar, depois de muitas mortes e destruição, a instaurar um minimalista processo democrático, é altíssima a probabilidade de que (1) uma boa parte da população vote, assim que puder, nos elementos mais radicais que prometem a libertação do que é, objectiva e subjectivamente, uma 'ocupação' e que (2) a paz civil fique longe de estar garantida. E por isso que a legitimidade do todo este processo é muitíssimo importante - não apenas por questões de respeito da lei internacional (afinal, algo irrelevante para os muitos que consideram a própria ideia de lei internacional apenas uma sinal de 'fraqueza' do Ocidente 'civilizacionalmente superior' - 'superioridade' essa que, estranhamente, assenta numa rule of law que é desrespeitada quando convém), mas porque, se aos olhos dos que, no futuro, terão que sustentar e garantir a democracia, esta não for percebida como minimamente justa, então não há democracia que aguente. Como dizia uma iraniana pró-democrata em conversa com Timothy Garton Ash: "I love George Bush (...) but I would hate him if he bombed my country" (idem). Pois. Tudo porque muitos membros desta geração pensam que o seu país "has as much right to civilian nuclear power as anyone else, and many feel it has a right to nuclear arms. These young Persians are pro-democracy and rather pro-American, but also fiercely patriotic. They have imbibed suspicion of the great powers - especially Britain and the United States - with their mother's milk. A wrong move by the west could swing a lot of them back behind the state." (idem).
A não ser... não ser, claro, que o terror quotidiano do género que reina no dia-a-dia no Iraque (e que reinaria seguramente no Irão no seguimento de uma intervenção militar) não afecte - como não afecta - por ai além quem viva deste lado do mundo; e que o que seja realmente importante seja, isso sim, o controlo de uns quantos pipelines. Se assim é, então era preferível que se falasse claro. Já que os 'falcões' são tão corajosos (estranha definição de 'coragem' esta que implica fazer uma guerra longe de casa em que praticamente as únicas mortes - que nunca vemos - pertencem ao campo inimigo) e macho-like (e acusam os outros de medricas e 'cegos voluntários' (José Manuel Fernandes, 'Publico', 13/02/2006)), porque não põem todas as cartas na mesa?

domingo, fevereiro 12, 2006

Ainda para o Miguel Sousa Tavares


Para continuar com nomes começados na letra 'A' (em associação com A Metamorfose): o realizador iraniano Abbas Kiarostami (1940-).

Não me digam...



EUA ponderam atacar Irão no âmbito da crise do dossier nuclear de Teerão
“Em plena crise nuclear iraniana, com o regime de Teerão a rejeitar mais colaborações com a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) e a ameaçar abandonar no Tratado de Não-Proliferação, o Pentágono estará a estudar planos para atacar o Irão, diz hoje o diário britânico ‘Sunday Telegraph’”. Cá para mim esse estudo já está mais que feito... apenas estarão a refazer a capa só para alterar a data e eventualmente acrescentar mais uns anexos.

Ainda os 'skills', ou porque a educação não pode ser a única resposta para o problema do (des)emprego


Só para não perder a embalagem sobre a questão do emprego e dos 'skills' evocada pelo post anterior do Pedro relativo ao livro do Sennett: num estilo menos ensaístico e mais técnico, consulte-se o importante trabalho de Colin Crouch, David Finegold e Mari Sako, "Are Skills the Answer? The Political Economy of Skill Creation in Advanced Industrial Countries" (Oxford University Press, 2001). Aqui fica a sinopse:

"This study of vocational education in advanced industrial countries contributes to two different areas of debate. The first is the study of the diversity of institutional forms taken by modern capitalism, and the difficulties currently surrounding the survival of that diversity. Rather than analysing economic institutions and governance in general, the authors specifically focus upon the key area of skill creation. The second theme is that of vocational education and training in its own right. While sharing the consensus that the advanced countries must secure competitive advantage in a global economy by developing highly-skilled work forces, the authors draw attention to certain awkward aspects of this approach that are often glossed over in general debate: 1. The employment-generating power of improvements in skill levels is limited: employment policy cannot depend fully on education policies; 2. While the acquisition of skills has become a major public need, there is increasing dependence for their provision on individual firms, with government action being restricted to residual care for the unemployed, rather than contributing at the leading edge of advanced skills policy. Covering France, Germany, Italy, Japan, Sweden, the UK, and the USA, this book provides a unique approach to education and training within the broader political and economic environment. As such, it will appeal to students, teachers, and practitioners concerned with vocational training, human resource management, industrial relations, and the sociology of the economy."

sábado, fevereiro 11, 2006

Os problemas da "skills society"



Richard Sennett publica no final deste mês o seu novo livro "The Culture of the New Capitalism" (Yale University Press), onde trata dos problemas que se colocam na esfera do trabalho num contexto de desenvolvimento das novas tecnologias e da subida dos níveis de qualificação exigidos pela chamada "skills society". Para Sennett, a mobilidade social através da aquisiçao de qualificações é "an unequal solution to lack of work or poor quality work: it is a solution which turns on personal escape rather than general security. Still, today, skill remains the armour people seek; upward mobility is the opportunity government provides to a few. Even so, the 'skills society' needs only a relatively small number of the educated who possess talent. In the cutting-edge realms of finance, technology, media, design and creative services, the economic machine can run profitably and efficiently by drawing on an ever smaller elite. The education system turns out large numbers of graduates who will not find work in the jobs for which they trained; more people will lose work to those in other countries who work for less; still others will find that as they age, their experience matters ever less. These are the spectres of uselessness today - images not of people confronting a broken economic machine, but of their own irrelevance in a system that works efficiently, and profitably". Estas dinâmicas e o "spectre of uselessness" gerado colocam novos desafios ao welfare state obrigando também a uma reconfiguração do papel do Estado, na medida em que o mercado "has proved difficult to cure the unemployment resulting from automation". Para Sennett, o sector público tem um forte contributo a dar: "In my view, the task ahead of the welfare state is to finance and to organise usefulness. Many tasks that provide care and mentoring are either poorly paid or unpaid; unrecognised as work. As the private economy sheds workers, we ought to invent ways to use the skills and experience of these workers as carers - which is to say that we need to expand the welfare state, rather than shrink it or convert it into a private, profitable enterprise".
Uma discussão central a fazer em tempos de "choque tecnológico" português e de mudança do modelo tecnoeconómico do país.

Mudemos de discussão: da bomba em cartoons para a (putativa) bomba real

A condescendência tem limites

Acabei de ler na Aspirina B a citação da seguinte frase da autoria de Miguel Sousa Tavares: «Não conhecemos, em todo o mundo árabe, o nome de um cientista, músico, arquitecto, cineasta, explorador, atleta, enfim, alguém que faça sonhar ou avançar a humanidade.»

Eu não posso - et pour cause - proibir este senhor de proferir estas palavras, mas faço o que está ao meu alcance e que é absolutamente legitimo, que é insultá-lo: elas testemunham uma arrogância boçal e uma ignorância grotesca.

Segurança, redistribuição, e a conversa do costume

Já se sabia que José Manuel Fernandes (no 'Público' de hoje, link só para assinantes) iria protestar contra as alterações propostas pelo Governo ao abrigo da "Prestação Extraordinária de Combate à Pobreza dos Idosos". Por uma razão simples: esta medida explicita o que para JMF é insuportavel - que a protecção social exista não apenas por motivos de segurança, mas também de redistribuição. Assim, "insurance is an institutional device for workers to consensually pool their risks and reimburse each other for potential future losses, redistribution is a device wherein money is taken from some workers and given to others in the present, without previous consent to do so" (a citaçao é de Torben Iversen, do seu "Capitalism, Democracy and Welfare", Cambridge University Press, 2005, p.4). Aqui, o princípio de solidariedade nao é so inter-geracional, mas também inter-classista.
E já agora convém parar com essa conversa de que "uma boa parte dos que estao hoje no activo corre o risco de, quando se reformar, encontrar os cofres da Segurança Social vazios". O Estado não é a Enron - se bem que haja muitos por aí que quisessem que assim fosse. Todavia, eles estarão seguramente menos cheios quanto mais as pessoas optarem por colocar o seu dinheiro em fundos privados, descapitalizando o sistema público - opção logicamente privilegiada por JMF, num belo e perverso exemplo de self-fullfiling prophecy (como os sociólogos gostam de dizer).

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Alguém pediu uma liberdade de expressão? A Guerra do Iraque segundo os media americanos

Eu já escrevi o que penso sobre a liberdade de expressão neste episódio dos cartoons. Agora sejamos coerentes em 'casa' para que as grandes declarações filosóficas não sejam uma caricatura (um cartoon!) da realidade. Eu não sou cínico - mas convém não dar argumentos de mão beijada aos que o são.


US media at 'all-time low'

Julia Day in Qatar

Arabic-language media have an unprecedented chance to take over as the world's premier news source because trust in their US counterparts plummeted following their "shameful coverage" of the war in Iraq, a conference heard today.
The US media reached an "all-time low" in failing to reflect public opinion and Americans' desire for trusted information, instead acting as a "cheerleader" for war, said Amy Goodman, the executive producer and host of US TV and radio news show Democracy Now!, at a news forum organised by al-Jazeera.

Newsweek's Paris bureau chief, Christopher Dickey, said the US media were dying because of cutbacks and weren't interested in covering the world outside America.
But other delegates questioned whether Arabic media were up to the challenge.
"The US media have done a shameful job of reporting on the Arab world. With the rise of al-Jazeera and independent media there is a chance for the Arab media to react back, but instead what we get is a clash," said Ethan Zuckerman, the co-founder of Global Voices Online and research fellow at the Berkman Centre for Internet and Society at Harvard Law School.
"I would urge everyone involved with new Arabic media not just to report on this [Arabic] world more fairly and accurately, but to report on the whole world more fairly and accurately. I challenge al-Jazeera and the new Arabic media players to do a better job that the US in covering the rest of the world," he said.
Ms Goodman said in the run-up to the Iraq war a study of NBC, CBS, ABC and PBS newscasts over a fortnight recorded 393 interviews on the conflict, of which only three reported the anti-war movement. "This is a media cheerleading for war and does not represent mainstream opinion in the US," she added. Ms Goodman said she believed the policy of embedding reporters with coalition forces was "a total failure for independent journalism ... western audiences need to see the other side of the story - from communities and hospitals".
"If people in the US had a true picture of war - dead babies, women with their legs blown off, dead and dying soldiers - they would say 'no'," she said.


A noticia completa pode ler-se no Guardian aqui.

"People's party"

O Partido Trabalhista britânico celebra este fim-de-semana o seu centenário. Para um rápido olhar pela história, visite o Guardian.

Bottom-line

Um dos pontos essenciais do debate em torno dos cartoons é que o princípio de liberdade de expressão deve ser defendido precisamente contra quem não o reconhece. Estivessem as duas partes em acordo sobre a liberdade de expressão, poderíamos estar a discutir o 'bom gosto' e a 'oportunidade' da publicação dos mesmos. Como os estados democráticos e estados teocráticos se dividem precisamente nesta questão (entre outras), o problema propriamente empírico e contextual do 'uso responsável da liberdade' passa para segundo plano: é precisamente pelos estados teocráticos não aceitarem a liberdade de expressão que o seu princípio deve ser defendido. Assim, argumentar APENAS seja em nome da 'responsabilidade', seja em nome do 'respeito pelo outro', seja em nome da 'real politik internacional', significa, mesmo que inadvertidamente e com toda a boa vontade, dizer que as regras escolhidas para arbitrar este caso foram as vigentes nos estados teocráticos.

Abaixo-assinado

O abaixo-assinado "Como uma liberdade", escrito pelo Tiago Barbosa Ribeiro e Rui Bebiano toca vários pontos essenciais com os quais concordamos. Só o início do último parágrafo causa algum desconforto, crítico que é dos apelos para a "responsabilidade" no uso da liberdade. Todo o problema não está no uso "responsável" da liberdade - está antes em condicionar o uso da liberdade ao seu uso "responsável". É na ausência de simetria que está o fulcro da questão - e que permite que entre liberdade e responsabilidade não haja uma relação de soma nula.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Argumentos verdes e maduros

Para Pacheco Pereira "Estamos em guerra e estamos a perder. Estamos a perder, antes de tudo, porque ainda não percebemos que estamos em guerra", enquanto que para Timothy Garton Ash "This is not a war, and it's not going to be won or lost by the west". É só ler e confrontar...

Modernização económica sem modernização cultural?

Fica uma ideia forte de dois dos últimos episódios da vida política nacional (o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a reacção relativamente aos cartoons dinamarqueses), uma vez regressada a 'normalidade' depois das eleições presidenciais do dia 22 de Janeiro: o Governo do Partido Socialista está apostado em fazer a modernização económica do país sem deixar que temas culturais 'fracturantes' se metam pelo meio e perturbem os espíritos dos portugueses. A razão é aparentemente simples: a primeira modernização, a económica, é já 'fracturante' que chegue para um país de equilíbrios sociais frágeis; se ao choque 'tecnoeconómico' (e não apenas 'tecnológico') adicionarmos - pensa o Governo - um choque 'cultural', então não resta ninguém para apanhar os cacos. Dai o discurso do que é e não é 'prioritário'.
A condicionar esta prudência está também um outro factor fulcral: o nosso zeitgeist político-ideológico virou, de há um punhado de anos para cá, decididamente à direita. Quando abrimos as televisões ou os jornais, o discurso sistematicamente reduz-se uma constelação de ideias muito semelhantes: o Estado é um cancro (e a administração
pública um bando de parasitas); os portugueses são uns preguiçosos, especialmente os desempregados (e, claro, por culpa do Estado); Portugal está na cauda da Europa mas o catching-up deve ser feito não como tendo o modelo europeu como referência, mas sim o americano. Aliás, toda a Europa devia ser modelada segundo as regras do shareholder value. O correlativo cultural deste discurso neo-liberal (e convém lembrar que antes de ser uma arma de arremesso
político, o neoliberalismo é um conceito de pedigree académico) é o neo-conservadorismo que varreu os EUA nos anos 80. Por cá ainda não chegámos a tanto: mas o que se passa no nosso espaço publico mediático é o suficiente para transformar a necessidade de mudarmos alguns dos nossos arcaísmos culturais em tópicos 'não prioritários'.
Resta saber se este contexto pantanoso justifica que não se estenda a perseverança reformadora do campo económico ao cultural (to be continued).

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Minorias e prioridades

Como seria de esperar, a JS decidiu recuar, por motivos estratégicos claro está, na apresentação da sua proposta de legalização do casamento homossexual. Até aqui nada de novo. A novidade está nas justificações dadas pelo porta-voz do PS ao DN, Vitalino Canas, relativamente à posição socialista sobre a matéria. Para o PS, "’esta não é uma questão prioritária’ e que ‘deve ser objecto de um amplo debate’, mas que ‘não deve ser decidido nesta altura’. Esta é uma posição que só poderá ser alterada ‘se houver um movimento maioritário que coloque o tema na agenda, ou uma decisão do Tribunal Constitucional’”. Destas palavras depreende-se o seguinte: qualquer minoria que pretenda obter algum tipo de direito tem que primeiro, precisamente, deixar de ser minoria. O PS e o Governo do PS só ouvirá, analisará e concederá direitos a movimentos maioritários que se façam ouvir e que tenham meios para tal, e não pela avaliação das necessidades legitimas dos grupos minoritários. Só aí se considera que são prioritários e merecem fazer parte da agenda política - como se este assunto específico não estivesse mais do que na agenda de muitos países europeus, já tendo alguns deles inclusivamente resolvido a questão. Combater as desigualdades de direitos, como esta e outras, passa precisamente por olhar para as minorias e perceber as suas necessidades e interesses legitimos sem esperar que elas, apenas e exclusivamente à sua custa, consigam ter o poder de reunir condições para fazerem pressão (sabendo as distorções a que este tipo de lógica está sujeita).

O sociólogo-historiador-politólogo da real politik que é filósofo existencialista nas horas vagas

"A história das caricaturas dinamarquesas é extremamente simples e começa e acaba numa linha: é uma questão de liberdade. Ou há, ou não há". (Pacheco Pereira in 'Abrupto'). Estará Pacheco Pereira disposto a aplicar o mesmo critério a outros valores, como, por exemplo, a igualdade de oportuidades?

O Diabo está nos pormenores

Declaração do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros sobre a crise dos cartoons 2006/02/07 Informações à Imprensa

"Portugal lamenta e discorda da publicação de desenhos e/ou caricaturas que ofendem as crenças ou a sensibilidade religiosa dos povos muçulmanos. A liberdade de expressão, como aliás todas as liberdades, tem como principal limite o dever de respeitar as liberdades e direitos dos outros. Entre essas outras liberdades e direitos a respeitar está, manifestamente, a liberdade religiosa – que compreende o direito de ter ou não ter religião e, tendo religião, o direito de ver respeitados os símbolos fundamentais da religião que se professa. Para os católicos esses símbolos são as figuras de Cristo e da sua Mãe, a Virgem Maria. Para os muçulmanos um dos principais símbolos é a figura do Profeta Maomé. Todos os que professam essas religiões têm direito a que tais símbolos e figuras sejam respeitados. A liberdade sem limites não é liberdade, mas licenciosidade. O que se passou recentemente nesta matéria em alguns países europeus é lamentável porque incita a uma inaceitável “guerra de religiões” – ainda por cima sabendo-se que as três religiões monoteístas (cristã, muçulmana e hebraica) descendem todas do mesmo profeta, Abraão."

Diogo Freitas do Amaral Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros


Este comunicado começa logo mal. Na primeira linha lê-se: "Portugal lamenta e discorda da publicação de desenhos e/ou caricaturas que ofendem as crenças ou a sensibilidade religiosa dos povos muçulmanos". Mas é 'Portugal' que lamenta e discorda ou o 'Governo português'? E que o este é identificável, foi eleito, tem nomes, e tem programa. Tem por isso legitimidade para falar a uma voz. Agora Portugal? O que é' Portugal', senão uma entidade abstracta? E que isto, atente-se, não é um pormenor: um dos nós deste problema está precisamente naquilo que é da competência reguladora e da responsabilidade de um governo e o que não é.
Imagine-se que este era o comunicado do governo dinamarquês, e que dizia então que "A Dinamarca lamenta e discorda da publicação de desenhos e/ou caricaturas que ofendem as crenças ou a sensibilidade religiosa dos povos muçulmanos". Faria isto algum sentido? A única coisa que faria sentido, numa sociedade liberal democrática, era o Governo dinamarquês dizer que "lamenta e discorda" (se efectivamente lamentasse e discordasse, e isso já é outra história) de uma decisão de um jornal do seu pais - sobre o qual, alas, não impende qualquer responsabilidade. Misturar os dois planos - a responsabilidade privada do jornal e a responsabilidade publica do Governo - é menosprezar as regras com que se cozem os regimes ocidentais.
E já agora, não se passou mais nada que mereça a reprovação oficial do MNE - umas ameaças e uns incitamentos ao ódio religioso, umas embaixadas incendiadas, uns mortos? Ou o respeito também abarca toda e qualquer destas reacções? Estarão elas dentro da legalidade e da legitimidade?

terça-feira, fevereiro 07, 2006

A posição ocidental sobre os cartoons: a estratégia e a táctica

Há em todo este processo dois momentos que raramente são tidos em conta de forma separada: um é referente ao momento de decisão de publicação dos cartoons, o outra ao momento de recepção dos protestos dos diplomatas árabes (e subsequentes protestos de rua). No primeiro o jornal dinamarquês podia ter exercido auto-censura; alias, fê-lo aparentemente no caso de cartoons sobre Jesus Cristo (ver o post anterior do Pedro). Não o ter exercido neste caso revela, alias legitima, dualidade de critérios. O jornal tem todo o direito de publicar aqueles cartoons - mas sabe que, em função da conjuntura internacional, corre o risco de desencadear uma tempestade não apenas diplomática, mas civilizacional.
Acontece que publicou. Publicou, está publicado - a única censura que podia ser exercida, a auto-censura, não funcionou. O critério editorial é contestável, mas legítimo. Or is it? Agora é que a porca torce o rabo: para uns é "contestável, mas legítimo", enquanto que para outros "é legítimo, mas contestável". Eu alinho pelo primeiro, mas não considero irracional o segundo.
Um dos problemas que me parece de solução menos fácil do que parece é se a liberdade de imprensa, que é um valor central e que nos custou muito a conquistar - em particular fazendo aquilo que muitos países islâmicos não fizeram (ainda), ou seja, a separação entre a Igreja e o Estado - deve ser ou não ponderada juntamente com questões de pendor estratégico. Repare-se: não esta aqui em causa a questão do 'respeito' pelo 'outro' (a essa já vamos noutro post sobre o problema do 'politicamente correcto'). O que está em causa são as consequências de certos actos, independentemente do seu valor. Manda a racionalidade estratégica que, em função do actual conflito entre países ocidentais e do Médio Oriente, não sejam provocados estragos desnecessários. Por outro, convém que se calcule o ratio entre ganhos/perdas de uma acção deste género. A liberdade de imprensa parece-me mais passível de defesa intransigente no caso de, por exemplo, um escândalo como o de Watergate, que abala a vida politica da maior democracia do mundo, do que no caso de um cartoon cuja publicação não traz nada de novo ao quotidiano noticioso - à parte de uma boa gargalhada (e verdade que um cartoon pode ser especialmente insultuoso precisamente pelo efeito humorístico que provoca - e também concordo que, na democracia liberal, se brinca com tudo, sem excepções, da religião à politica - mas isso tem consequências que não se pode escamotear a posteriori). Tudo isto tem que pesar na decisão de publicar deste cartoon - como pesou na não publicação do de Jesus Cristo. Qual a diferença entre um e outro? Em abstracto e por princípio, nenhum. Na prática, algumas bem importantes, com impacto ao mais alto nível político internacional.
O segundo momento é aquele que é triggered pela reacção da comunidade islâmica internacional. A reacção tem todos os tiques de manipulação politica - ao ponto de se dizer que tudo isto não passava de uma conspiração israelita como resposta à vitória do Hamas nas eleições palestinianas. Acontece que os cartoons foram publicados em Setembro, e as eleições foram em Janeiro! Ora, aqui, não há que 'capitular', para citar o 'canhoto' Rui Pena Pires. Mas se a posição de não abdicar dos valores ocidentais parece-me correcta, há questões tácticas que não podem ser descuradas. Por exemplo, o facto de o primeiro-ministro dinamarquês não ter recebido os um grupo de diplomatas árabes, algo explicável pela conjuntura politica local (não esquecer que o seu governo é apoiado por um partido que, não fosse esta a discussão, chamaríamos de xenófobo e anti-islâmico, o Danish People's Party), é um péssimo gesto; fossem o grupo em questão outro e o protesto seria seguramente recebido (atenção: receber os diplomatas não significa fazer o que eles exigem). Por outro lado, não perceber que as pessoas se sintam indignadas e protestem não presta grande serviço nem à capacidade hermenêutica dos ocidentais nem à resolução do conflito (de novo, isto significa tudo menos aceitar a forma extremamente violenta que os protestos assumiram; é preciso saber separar o aceitável do inaceitável). Se não houver abertura táctica - e táctica aqui não significa postura inautêntica: por exemplo, eu acho que as pessoas têm legitimidade para se sentirem ofendidas e protestar pacificamente, o resto é que já não -, então os países ocidentais atiram os islâmicos moderados (e convém não tomar as pessoas que apareceram nas câmaras de televisão como representantes de uma 'reacção islâmica') para um dos extremos: ou a defesa intransigente dos valores ocidentais, ou a simpatia com as massas islâmicas em revolta (sendo que a segunda é claramente mais provável que a primeira). E sem a capacidade manter interlocutores islâmicos moderados, não há saída para este conflito e para os que se aproximam. Porque, já agora, é preciso transformar o Hamas precisamente nesse interlocutor moderado.

Sensibilidade e bom senso...

No Público de hoje pode ler-se:

Jornal dinamarquês rejeitara cartoons sobre Jesus

"O jornal dinamarquês que publicou os cartoons de Maomé recusou publicar caricaturas sobre a ressurreição de Jesus Cristo, que há três anos lhe tinham sido enviadas pelo ilustrador Christoffer Zieler, argumentado que podiam ser ofensivos e que não tinham piada. Zieler contou ontem que tinha enviado os desenhos para o jornal e que recebeu um e-mail do editor de domingo, Jens Kaiser, dizendo: 'Acho que [os desenhos] vão provocar uma grande agitação. Portanto, não os vou usar.'"

Era apenas isso que se pedia face à actual conjuntura política internacional. O direito de publicar é inquestionável mas o seu exercício pressupõe responsabilidade, como em qualquer decisão editorial quotidiana. Agora que já está, e em nome desse mesmo direito, não há qualquer recuo a fazer, muito menos tomadas de posição dos Estados dos países onde os cartoons foram publicados, que não têm de responder por isso.
É interessante notar também o etnocentrismo omnipresente, e compare-se este caso com o dos cartoons rejeitados onde figurava Jesus Cristo: a capacidade de avaliar empiricamente a reacção dos que se sentiriam desrespeitados e a sensibilidade moral presente nessa decisao é muitíssimo maior do que neste caso, onde parece não ter havido particular preocupação pela forma como as figuras iriam ser recebidas pela populaçao islâmica, o que não era difícil de adivinhar. Assim sendo, pode dizer-se que ou houve ignorância ou má fé.

O 'Samurai do Sionismo'

Num momento em que a morte (pelo menos) política de Sharon e a vitória do Hamas nas eleições palestinianas ensombram as expectativas de paz a curto-médio prazo na região mais importante do mundo, vale a pena conhecer o lado menos mediatico de Ariel Sharon pelo excelente testemunho do jornalista isrealita Ari Shavit.
E, já agora, quando chegar o momento de avaliar o legado de Sharon, evitar que a - memorável, sem duvida - retirada dos colonatos judaicos não apague décadas de história (os palestinianos, esses, não têm seguramente a memória curta).

Post-Democracy?



«By the late 1990s it was becoming gradually clear in the most industrialized world that, whatever the party identity of the government, there was steady, consistent pressure for state policy to favour the interests of the wealthy – those who benefited from the unrestricted operation of capitalist economy rather than those who needed some protection from it. What seemed to be the extraordinary opportunity presented by the fact that nearly all the member states of the European Union were dominated by centre-left parties was resulting in no notable achievements at all. As a sociologist, I could not be content with explanations of this that concentrated on the veniality of politicians. It was related to structural forces: nothing was emerging within the body politic to replace the challenge to the interests of the wealthy and socially advantaged that had been presented for most of the twentieth century by the organized working class. The numerical decline of that class was returning politics to something resembling what it always was before: something to serve the interests of various sections of the privileged» (p.1)

Estas são as linhas que abrem o mais recente livro de Colin Crouch. Post-Democracy é um pequeno must read para quem se preocupa com o presente e futuro da politica em geral, e da social-democracia em particular. Uma das ideias-chave que é particularmente importante para saber exactamente do que queremos dizer quando falamos de 'modernização' (que é basicamente a catch-word que lidera a imaginação centro-esquerda europeu actualmente - mas basta regressar aos debates politicos do pos-1945 para perceber que desde então não se fala de outra coisa) é o que Crouch chama "parabola" da working class. Basicamente, a ideia procura captar o processo segundo o qual:

«during the twentieth century, that class moved from being a weak, excluded, but increasingly numerous and strong force banging on the door of the politica llife; through having its brief moment at the centre, in the period of formation of the welfare state, Keynesian demand management and institutionalized industrial relations; to end as a numerically declining and increasingly disorganized grouping being marginalized within that life as the achievements of the mid-century were booted out after it. The parabola can be seen most clearly in the British case, and perhaps also in that of Australia: the rise of working-class political power there was gradual and extensive; its decline has been particularly steep. In other countries where the rise was similarly gradual and extended - primarly in Scandinavia - the decline has been far less. The North American working class had less impressive achievements before an even more decline set it» (p.6).

A ideia-chave é simples: as tendências actuais apontam, de forma mais ou menos gradual e mais ou menos incisiva, para um regresso a realidades que marcaram o capitalismo liberal do século XIX, em particular a ausência de representaçao dos interesses organizados das classes trabalhadoras. Este processo tem efeitos na tanto na qualidade do processo democratico como no possibilidade de levar a cabo politicas igualitaristas - também elas arrastadas pelo efeito da parabola: a democracia corre o risco de ficar entregue a elites que se representam sobretudo a elas proprias; e as politicas igualitaristas podem ficar, por consequência, sem agentes capazes de as conceber e implantar. Qualquer 'modernização' de esquerda tem que ter estes problemas no topo da sua agenda. Não chega ser 'modernizador' in abstracto - algo que, infelizmente, nos dias que correm, é particularmente conveniente.
Crouch fala disto tudo em algum pormenor. A ele voltaremos.

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